14 de Agosto de 2008

Redes

Mil coisas.

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O dia de ontem começou estrainho. Andava na zona 10 da Cidade Guatemala, uma das áreas mais bacanas da capital. No ouvido meu mp3 cantarolava transformando meus passos num videoclipe. Olho para procurar um táxi na batida da batera; vejo os passos da mulher da frente no ritmo do baixo, o carro acelera no refrão. Me sinto a cantora caminhando em busca de sei lá quê e desconecto do mundo real. Enquanto uma coisa meio eletrônica me fazia lembrar a primeira vez que escutei a tal música em casa, em Sampa, um homem me tomou o radinho da mão, quase levou o dedo de brinde, e junto com seu parceiro atravessaram a avenida correndo: “pero está roto!” gritei prevenindo de que não teriam muito lucro com o roubo. Quase ri, porque já nos entendíamos pouco, eu e o mp3 semi quebrado, e continuei o videoclipe, naquele pós música em que o ruído da cidade sobe de volume e a protagonista acaba sua participação em slow motion. Entrei num táxi sem bem entender que tinha sido roubada finalmente (lembra que há dois dias foi por um triz? Agora foi, mas estava com minha câmera na mochila e continuei com ela lá… tudo lindo! E estas são as fotos prometidas do dia do quase!) e fui para a entrevista com Walda Barrios.

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Ela, feminista que foi candidata a vice presidência da Guatemala não apenas estuda a questão da migração como viveu a guerra civil do outro lado da fronteira, no Chiapas/México. Entre tantas coisas interessantes que falou uma me fez reacender um monte de sinapses. Ela disse que com a assinatura do acordo de paz, em 1996, depois de quinze anos de vida em San Cristobal não teve vontade de voltar. Sua filha também não quis e hoje vive nos Estados Unidos. O marido e o filho quiseram. Ela acabou voltando porque não queria abrir mão de sua vida a dois, do parceiro da sua vida. Eu já havia escutado estudos sobre isso: as mulheres quando migram logo criam redes, se relacionam com os vizinhos, constroem novos vínculos afetivos, viram daquela terra mesmo. Os homens ficam na nostalgia do que foi, do país distante, do que não tem. Não que seja sempre assim, vejam bem…, mas isto tem se apresentado como uma tendência em minhas andanças. Vou estudar mais para em dezembro preparar uma matéria sobre o tema, lá do lado de cima. Mas voltei pensando nas redes. Fiz mais tantas coisas, sem música, snifs, e a noite já cansada me chega um email que deu outro sabor ao dia: a Dolores deu notícia!


Lembra a menina linda que deu a luz a Bianca Sofia num albergue mexicano?
Pois bem, ela já chegou no norte do México. Teve um febrão de 40 graus conseqüência de uma infecção por não ter descansado e comido direito depois do parto. A ambulância veio e ela foi internada. Felizmente o amigo que fez no albergue lá embaixo e que se ofereceu de acompanhá-las até os EUA, Alejandro, lhe trata como bem merece. No hospital descobriram que ela era hondurenha e disseram que iam deportá-la. Ele então se ligou e “sequestrou” a amiga. Agora Dolores se recupera enquanto Alejandro faz as mamadeiras, as comidas e lhe ensina história e inglês. Juntam dinheiro para um coyote cruzá-los para os Estados Unidos, sem ser pelo deserto nem pelo rio, para não colocar em risco a pequena Sofia. Fiquei com o coração na mão de imaginar aquela menina tão doce e linda e frágil lá doente com sua bebê, tão longe da família. E ao mesmo tempo fiquei emocionada de receber notícias. Que as duas e também seu anjo protetor Alejandro cruzem a linha e formem uma rede, uma nova vida no norte! E que estes azares do caminho fiquem pelo caminho… Sorte!


26 de Julho de 2008

Medo no Saia Justa…

Lembra aquele textinho que escrevi sobre medo… pois bem, para afastá-lo de mim um pouquito propus este vídeo para o Saia Justa.

Para quem não viu, lá vai!