15 de Setembro de 2008

Pára o blog que eu quero descer!

Somou tudo:

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Matéria barra pesada sobre tráfico de mulheres, aquela que fico adiando cada dia para não ter que ver + uma gripe chatiiinha, a primeira dos quase seis meses de viagem… como boa gripe trouxe no pacote uma moleza preguiçosa, um dengo dengoso de péra só um pouquinho + o dead line de seis matérias (ai ui) antes de partir outra vez mais para o norte + um furacão que passou por bem lá mais deixou a cidade num molhado daqueles que lembra chocolate quente com cobertor.
Resultado: o américa sem fronteiras ficou tão paradinho, coitado… sem novidade, sem vídeos, sem fotos nem vida. Mas tem hora para tudo e cada coisa. Assim baixo do blog para tomar um café, tirar um cochilo, recarregar as baterias, bater uns papos e uns cliques. Porque como boa migrante que também sou o pé na estrada é bom (bem bom) mas cansa (uh, como cansa…). Hora de repouso. Volto com novas e boas histórias, novo país, novas fronteiras!

Dia 30 de setembro já lá em cima - Nova Iorque! - nos encontramos!

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Hasta la vista! See you here! Beijo e até!
Eliza


27 de Agosto de 2008

Elizabeth encontra Elizabeth

Cidade do México. 21 de agosto.

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Acabava de falar o bambambam da migração latinoamericana. Metade do auditório levantou para tentar algum contato. Eu fazia parte desta metade. Fui ficando atrás, aproveitando para escutar as perguntas e pedidos em quase off. Faltava uma e era eu. Ela tinha um casaco vermelho em cima de um vestido vermelho em cima da calça jeans. Os olhos brilharam e o punho se manteve firme: “eu estou criando um movimento de mulheres migrantes”. Não era bem isso, mas chamou minha atenção. A guerreira então sentou a uma cadeira de mim, do lado oposto do alemão do post que virá. Cochichando disse que queria falar com ela um pouco, depois. Sentamos juntas para o almoço do tal seminário. Uma de frente para outra quase num espelho. Ela 27. Eu 28. Ela Elizabeth. Eu Eliza. Ela rodando um doc sobre emigradas. Eu propondo um doc sobre emigradas. Ela com aquela coisa de acreditar num sonho, num desejo. De olhar no fundo dos olhos dele e falar: “sairás do plano das idéias, oh idéia”. Eu também, e cada vez mais, amém. Ela migrou seis meses para os EUA. Só no dia seguinte, porque quando o encontro é assim e é possível há de se almoçar de novo, me contou dos perhaps do caminho. Ela migrou por crises inadministráveis no momento. Demissão, fim de namoro, família se desintegrando. Foi para poder sair do redemoinho da vida. Da vida que lhe escapou das mãos. Foi por isso que se pôs em movimento. Na solidão, nos passos, foi se reconstruindo. No norte trabalhou como nunca havia trabalhado. De garçonete de um lado para garçonete no outro. Um dia chegou no trabalho e o chefe disse: “assina o ponto e vamos para a minha casa”. Ela disse “não”. Insistiu no “não”. E não foi. Das cantadas começou a ouvir desaforos: “deixa a sua irmã na minha jaccuzi e está tudo resolvido”. Foi nos chefes do chefe (era uma franquia) e acusou o abusador. Ele inventou mentiras e ela sentiu medo. Um dia chegou no trabalho e ele, a esposa, um suposto advogado e um suposto da migração a aguardavam: “fala publicamente que mentiu e tudo seguirá bem. caso contrário te deportamos”. Elizabeth foi ao banheiro, do celular da amiga ligou para a mãe dela, da amiga. Se acalmou, um pouco, o quanto podia. Saiu e disse que não sairia dali: “então vamos te deportar”, “eu tenho visto”, “mas não pode trabalhar”, “quem disse que eu estou trabalhando? tem algum papel assinado?”. Não tinham. Venceu o cinismo divertido. Porque um patrão que contrata ilegais para pagar menos chamar a deportação é piada de mau gosto. Mas as amigas de Elizabeth que não tinham o visto estampado de turista, ou a coragem rasgada da atriz não haviam chegado tão longe. Haviam ido a casa do patrão. Uma a uma foram se confessando, lamentando, desabafando. Sem detalhes porque a culpa, o asco ou a vergonha não permitiam. O processo da mexicana continua rodando nos EUA. “Soube que outras duas meninas que entraram lá agora, que foram cantadas já denunciaram ele também, aproveitando o processo”. Mas depois de tudo Elizabeth se encontrou com Elizabeth. Não precisava mais estar lá para estar consigo. Voltou.

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Hoje, dona de si, dos passos e sorrisos toca seus projetos intensos. Co-dirige uma obra com um espanhol, prepara seu doc de emigradas, das amigas que continuam lá por cima. Um dia veremos a vida que ela editou projetada em algum festival. Prometemos ir para Tijuana juntas. Pensamos em juntar forças. Por hora brindaremos – me voy que és hora do terceiro encontro!

Ps: Elizabeth é a segunda personagem do próximo Saia por Aí: dia 03/09 na GNT!


26 de Agosto de 2008

fouzia em busca de fouzia

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A menina com a flor amarela na cabeça, o vestido lilás e a sombrinha florida carregava olhos cinzas de quem já não quer mais. Andava tentando livrar-se deles e a cada passo caiam cacos de já não. não mais. Lembranças de dias que não deveriam, não devem, ser lembrados. Aos poucos a mirada se coloria de lilás, de amarelo, de florido, de verde e vermelho. De vida, de sonho. Ela nasceu na França mas a mãe veio das Arábias. A matriarca nunca aceitou não poder ser o que era. E para sê-lo teve que ir. Cruzou a Espanha, cruzou as culturas distantes, tirou as roupas: “eu vim do caminho” me disse a filha. Veio dos passos que buscam mais. A mãe pobre, migrante ralé, começou catando coisas. O dom das artes ficou em alguma lata com o sonho do brilho. Os cinco filhos vivos, dos seis que pariu, puderam dar-se ao luxo de ser mais que sobreviventes. Fouzia sabia da sorte. E por isso lutava contra a tristeza, lutava contra o tempo que não lhe permitia quarenta horas em vinte quatro. E ela sim brilhava: circo, teatro, trabalho social, estudofouzia02.jpgs, e mais, e mais. Mais. Mas era tudo tanto que um dia cansou. Caiu na cama e o frio parisiense congelou os planos. Esfriou os pés. Chorou pelas provas que não lhe garantiam dez. Paralisou pelo amor que não foi, não tanto quanto deveria. Sempre pode mais. Sempre poderia. Cansou de não ser-se. Mas já não sabia. Foi ficando: “queria parar de existir”. “O que é diferente de querer morrer”. Isso ela me disse assim como quem diz. Como quem sabe bem uma e outra coisa. Ela queria virar ar e ir. Ir dali. E então cruzando o parado uma faísca de esperança lhe chegou por email. Ela arrancou o talvez e calçou as meias. e seguiu. Foi. Protegendo-se do sol e entregando-se ao passado presente das ruínas, a francesa de todo o mundo caminhava em busca de si. Ia até que irá. Ah, mas irá.

Talvez, já foi.

Beijo Fouzia. Boas sombras e muito sol!

Ps: Fouzia é personagem, linda, da próxima matéria do Saia Justa.


08 de Agosto de 2008

opa! começou outra viagem!

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Hoje volto para os dias de migração depois de uma pausa para editar matérias para a Televisión America Latina e fazer o próximo video para o Saia Justa (quarta que vem na GNT!).

Já passei dos quatro meses de estrada e a verdade é que começava a me anestesiar, tipo, “ah, que bonito, ahã, bonito”. Afinal toda semana era uma nova maravilha a ser descoberta. Mas no primeiro “chicken bus” que entrei na Guatemala me deu um clique! Agora começou outra viagem! gritaram meus olhinhos. As mulheres mayas no banco da frente riam com um tempo diferente do meu capixaba/carioca/paulistano.

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Os olhares tinham uma doçura, um quê que já não lembrava. As línguas, 22 incompreensíveis, me faziam sentir meio que na Ásia. Com seus traços orientais indígenas e uma tipo saia comprida e reta de um tecido duro, bem amarrada na cintura, com três voltas de cinta prendendo, apertada mesmo, me faz lembrar o andar de uma chinesa. As blusas (guipil) coloridíssimas, cada vila com seu bordado típico, no meio das paisagens me lembram fotos de plantações do outro lado do mundo. Bonito! Bonito…

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Foram dias de Antigua e de Lago Atitlan. Uma cidade colonial linda cercada por vulcões e um lago azul bem azul com outros três vulcões - são 33 na Guatemala. Deixo algumas fotos para dar um gostinho do que escrevo. Hasta!

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americano do norte, americana do centro

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eu com meu marshmelow (como escreve isso?) vulcânico!

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mickey e as ruinas de antigua (an?)

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jesus, menina maya, ruínas, vulcão e walt disney (an? an?)


07 de Agosto de 2008

massagem de ovo

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Sentei na mesa de café da manhã do luxuoso e lindo hotel Casa Palopó. Veio a gerente, pediu licença, sentou. Já ensaiava minhas perguntas quanto ao número de quartos, perfil de hóspedes, qual é a alta estação quando Sandra começou a falar do poder do feminino, feminismo, Simone de Beauvoir e Foucalt. Arregalei os olhos, senti o silêncio vulcânico e esqueci todo e qualquer papo de praxe com gerentes de hotéis. Pincelamos sobre cultura maya, envelhecer, auto empoderamento, menopausa, obrigação social de ter um hômi do lado. Sandra, quarentona linda, citou sei lá quem e sua teoria de que quando entendemos o nosso fluxo, nossa missão, tudo flui. E assim me senti ali. Terminamos o papo no jantar, onze e tanto, desenhando um projeto juntas. Adiei minha ida para capital e no dia seguinte fomos de Palopó para o outro lado do Lago Atitlán. San Pedro é a vila dos mochileiros: sexo, drogas, diversão e bons preços, dizem. Fomos procurando um xamã maya e acabamos na casa de uma curandeira e “osseira”.

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Vicenta ela chama. Começou contando que seu dom veio num sonho, depois de quase destruir o casamento porque o marido não aguentava mais a mulher doente todo o tempo. Para se curar Vicenta tinha que curar também. A mulher abriu a porta de sua casa recém construída por um gringo que virou seu discípulo e em cinco minutos havia resumido a vida. Contou do “quase” estupro que sofreu na última consulta médica para curar suas dores. Seus olhos molharam: “nessa hora da minha vida eu não sentia mais nada”. Contou de como colocou os ossos do sogro no lugar, depois do genro, depois do marido. Contoumassagem-ovo04.jpg como uma mulher bem branca e alta, que usa uma bata compriiiida, chegou em seu sonho e lhe ensinou a fazer tudo que faz. Contou da vizinha que sonhou que ela poderia curar seu filho que sofria de mal olhado e de como ela curou o pequeno. Curou outro outro outro outro até que sonhou que podia curar. Mais lições oníricas brotavam da boca da mulher maya que se esfroçava para falar o espanhol.

No final pedimos para ser curadas também: quem depois de todo o papo não lembra de um probleminha? Não contei o meu. Ela foi me massageando com um ovo de galinha e então disse para o cunhado numa língua bonita e ele me traduziu: “você quer fazer tudo muito bem feito, e se não sai do jeito que você quer você fica assim, tão cansada”. Vicenta diz que é uma voz que fala por ela estas coisas. Eta vozinha danada…


29 de Julho de 2008

.até aquele dia.

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