deixe me ir, preciso andar…
ou só mas bem acompanhada
ou cadê minha pistola?
Viajar sozinha é uma experiência de explorar para fora e para dentro. Se caminha descobrindo os medos e desejos ao passo que se escuta o que tem que ser e de onde fugir. E conto que ser mulher sozinha na América Central nem sempre é gostosinho. Na primeira saída que dei no Panamá por la noche levei uma mãozada na bunda em pleno farol, numa avenida deserta. Antes de ontem quando entrava no primeiro ônibus nicaraguense um homem alto, de camisa azul e chapéu de boiadeiro me cantou (ou algo parecido): “senta aqui do meu lado para me esquentar”, disse em tom de ordem e não de chaveco. Sentei o mais longe que pude me esquivando de olhares. Concentrada fazia cara de quem não tinha medo, de quem acha muito normal dormir com todo seu equipamento e corpo desprotegido num ônibus cheio de homens de outra cultura. Fingindo não me aterrorizar com um homem de chapéu e cinto de boiadeiro que se sente no direito, apenas pelo fato de ser homem e estar a frente de outro ser, menor, feminino, de dar ordens de seus desejos em alto e bom som.O ônibus, disse o chofer, deveria parar em Managua uma da madruga. Eram três e nada. Como a estrada estava péssima – e péssima neste caso não é superlativo se não constatação sóbria – e a todo tempo se parava para subir sacos de feijão, de banana, cestas de palha achei que tudo bem o atraso. A Nica com quem havia trocado meia dúzia de palavras então soltou a bomba: “mudaram o caminho e não vão passar em Managua”. Simples assim. As 3h30 da manhã o motorista pára numa feira que começava a se montar, com duas dúzias de homens distribuídos no breu: “aqui vai passar um ônibus para Managua, vocês podem esperar”. Com a cara inchada das dormidas saltitantes (havia saído de San José 5h30 da matina) perdi metade de meu espanhol e toda a classe e dei de louca: “que feo. Vas a dejar dos chicas acá? Como dije una cosa y cambia?” Sei lá mais o quê gritei com 23 quilos de roupas nas costas e dez quilos de câmeras e computador na mochila da frente. No fim voltamos para o ônibus e quando cruzamos um que ia de verdade verdadeira para Managua o motorista nos levou na porta e pagou a passagem.
Cinco e pouco da manhã cheguei. Totalmente sem humor, com uma cara que nem era minha. Tive aquela vontadezinha de chorar no ombro de alguém mas como achei que a recepcionista da pousada não entenderia tanta intimidade de uma nova hóspede resolvi só dormir – esta é uma das coisas mais importantes para mim numa viagem: nunca jamais fique cansada nem durma menos do que seu humor solicita. Durante todo o dia fiquei com a sensação de “aqui não”. Só escutava “cuidado com isso”, “ojo com aquilo”, “por ali não pode”, “peligroso”, “peligro”, “ojo”. Metade era o que deve ser, a outra metade acho que atraí por estar com a alma medrosa. Sei que mandei fazer cópias de foto e a máquina quebrou – briguei com o atendente. Já tinha brigado com o taxista. E antes que brigasse comigo também resolvi escutar a tal da intuição. Fiz a entrevista que estava marcada com a menina Paola (papo de um post logo mais), marquei outra que me é importante (com o filho de Gorgina!) para o dia seguinte de manhã e bye bye. Fujo para a cidade vizinha, linda e colonial; de lá armo o que falta da capital. Busco um lugar para dizer “aqui sim” e quedarme sin miedo. Se não de nada vale ir tão longe. E se há uma coisa boa, bem boa, em ser mulher é permitir-se aguçar o tal do sexto sentido. E uma coisa linda em estar sozinha é mudar o destino sem pedir permissão. Nos vemos em Granada! Boa viagem, porfa…


