09 de Novembro de 2008

Sempre tive um medo de tanto viajar, de estar longe: Perder a linha de quem fica, a rotina, perder. Penso sempre na vó do lado de lá, nos pais, nas irmãs, nos amigos. Quando penso que posso estar longe e não vê-los partir para a fronteira de cima, bem acima de todas estas que cruzo com meus passos, me paraliso. No começo desta viagem a mãe de minha melhor amiga, a mãe que me recebeu em seus braços e sua casa quando migrei para São Paulo passou para a dimensão do ar. Já era esperado, tristemente esperado. Estava na Costa Rica, numa praia linda, e passei o dia andando, vendo água, respirando. Mandando meu amor, minha gratidão para tia Lia, como numa oração.
Agora no ônibus, voltando da casa de um tio amado em DC para Nova Iorque recebo uma ligação brasileira. Notícia ruim chega rápido, já sei. A voz da irmã tenta não dizer mas por fim conta do outro tio, lá de baixo do mapa, Vila Velha: Indo comprar camarão para sua pescaria teve um tu tum e parou o peito.
Tio Allemand, o grande pescador piadista que alegrava as tardes de Iriri: espero que os camarões cheguem fresquinhos no céu e que a pescaria seja boa. Que os peixes sejam grandes e macios e que não falte cerveja gelada.
Abraço aqui de longe com muita saudade e muito amor minha prima Lubi - irmã dos verões adolescentes, meu sobrinho Gui, tia Maria Lucia, vó Maria, primo Fábio. Muito amor e muita paz. E um brinde ao lindo e querido tio por sua passagem gargalhante pela terra. Amém.
31 de Outubro de 2008

Sim. Tpm é assim. Choro. Quem conhece sabe. Quem é mulher entende. Os homens sensíveis se divertem. Na verdade também acho um pouco engraçado tanta fragilidade. Tanta emoção. Tanto tanto. Tento não dar tanta importância, olhar como cena de um filme que só assisto. Com outra atriz. Os três últimos ápices de drama foram boas cenas. Ou pareceram. Lá vai:
Chororo 01: eu no metrô. Cabeça a mil pensando no documentário que gravarei em dezembro/janeiro. Sinapses. Feliz. Pensante. Olho meio para baixo, meio para janela negra com luzes que correm. Levanto o olho e lá esta ela. No banco em minha diagonal, minha mãe. Com 10 anos mais. Vejo minha mãe no futuro. Susto. Olho de novo. já não lembro do doc, da estação. Minha mãe me olha. Minha mãe depois me olha agora. Como só uma mãe poderia ela vê dentro dos meus olhinhos. Sorri e pisca um olho. “eu sei” disse sem dizer com uma piscadela. Como numa alucinação sóbria, um sonho acordada sorrio inteira para a mãe que não era. Mas que poderia ser. A emoção me invade. Lembro da saudade. Do tempo que anda. Do envelhecer. Da distância. Sem pensar com palavras abaixo o olho. Não suportaria mais olha-la. Choro. Rio.
Chororo 02: skype com a irmã mais maior de grande. Escolhendo vôo de volta. 27 de dezembro de 2008. 10h50 pm. definido. Minha irmã ri, “bem vinda”. “posso dar só uma choradinha?” pergunto sem pensar. Ela continua rindo. “Sim”. Choro. Sem saber se era de alegria de voltar e matar saudades, de tristeza de acabar a viagem. Do recomeço ou do fim. Como numa separação em que algo se acaba para o novo. mas é um fim. Um começo. Dá medo. Dá gosto. Dá dúvida. Tudo junto escorre.
Chororo 03: em cima da bicicleta. acabava de pagar a reserva do quarto aonde vou morar semana que vem. Conversei com suzi, uma artista de singapura realmente cool com quem viverei. Estava feliz. Bem feliz. Pedalava rápido nos oito graus. Sorria. Me deliciava com a música. Com o frio. Com o Brooklin. Com a vida. Até que um homem abre a porta de seu carro estacionado. Não vi. Não a tempo. Vôo por cima da bike. Bato o braço. Caio. Não sei se caio. Mas caio do sonho de meu videoclipe. O homem pede desculpa. Pergunta se está tudo bem. eu simplesmente não podia falar. Não em uma língua que não é a minha. Esta. Levanto a bicicleta. Sacudo o braço. Abaixo o olho. Pedalo. Páro na esquina e derreto.
Ok. Mês que vem tem mais.
29 de Julho de 2008

14 de Julho de 2008

O marido de Alicia vivia há quatro anos em Houston. Saudoso vendeu o carro e tudo que tinha e pagou 12 mil dólares para um coiote transportar a mulher e a filha de quatro anos para os Estados Unidos. E assim as duas saíram no dia 30 de novembro de 2004 de Juayua, região Ocidental de El Salvador rumando para o norte. Antonio, pai de Alicia passou um mês sem receber notícias delas. “Eu e minha mulher ficamos doentes, nos falaram que elas iriam direto e que do México voariam para os Estados Unidos”.
Um dia um homem com uma voz exigente ligou para Antonio a meia noite. Pediu 800 dólares para que ajudasse a filha doente. Depois de pedir passou o gancho para Alicia: “estou bem pai, estou bem.” Antonio ficou mais tranqüilo e enviou os 800 dólares no dia seguinte. Passados dois dias o coiote ligou novamente e pediu outros seiscentos dólares. Antonio enviou o dinheiro e assim outras quatro vezes: “já estava bem endividado, mas o que podia fazer?” Alicia então escapou do hotel e ligou para o pai. Contou que estavam presas no quarto sem receber comida enquanto o coiote bebia o dia inteiro. Pediu outros mil dólares para que a mãe do coiote cruzasse até os Estados Unidos com elas. Depósito feito chegaram a terra do Tio Sam. Pagaram um tanto mais para chegar em Houston e em 14 de fevereiro de 2005 acabou a saga de Alicia e o sofrimento de seus pais em El Salvador.
A menina de 23 anos então começou a trabalhar numa pizzaria ganhando US$ 6,50 por hora. Hoje já ganha três dólares mais a cada sessenta minutos. No último ano o marido se juntou com uma americana e Alicia se mudou da casa de dois quartos – de 1.200 dólares - para um quarto de 400 na casa-de-não-sei-quem. A filhinha que já fala bem inglês e acaba o primário fica com os vizinhos conterrâneos (da cidade de Sonsonate, ao lado da bela Juayua) enquanto a mãe trabalha. Assim Alicia paga as contas, freqüenta uma igreja evangélica e envia 200 dólares mensais para os pais. “Isto nos ajuda muito”. Antonio dos 510 dólares mensais que ganha como professor recebe 240 líquido. “Com o que ela envia compramos comida”. Quando pergunto como é viver longe da filha, da saudade, Antonio muda o tom de voz, começa a responder e engasga. Se levanta, sai da sala. Sinto vergonha de ter feito aquele senhor se lembrar do pior que sentiu. Ele volta depois de um minuto: “Ficamos doentes com tudo isso, o preço emocional que eu e minha mulher pagamos é muito alto. Então oramos, oramos muito porque é só isso que podemos fazer”. Não podia mais nada perguntar. Agradeci. E lamentei.