16 de Novembro de 2008

Foi só fechar o olho. Flauta, pandeiro, violão. Quadril ziriguidum. Som para dentro. Tudo aquilo que já conhecia e ali tão novo. Dançava em outro lugar. Dançava em casa. Sabia onde cada um dos amigos intímos estaria. Quem pedia a saideira. Quem insistia para ficar. Os beijos no banheiro, escondidinhos, como quem rouba, sorri e sai no ritmo. Os flertes entre passadas. Os corpos que se encostam pedindo mais. Os olhos, cerveja na mão, cigarro na boca, desejo no corpo inteiro. Os pés que se atraem. Vestido azul. Vestido vermelho. Lu, cadê você Iemanjá? Seis cordas. Sete cordas. Cidão. Risos. Muitos. Uma voz que sobe mais com toda a alegria. Toda a tristeza. Tudo o que é voz. Estava tudo ali nos acordes. Nos quadris. Na saudade. O olho abria e Nova Iorque voltava. Vinho para a banda. Cigarro só lá fora. Casacos e botas. Mas era só o pandeiro chorar, chorinho, quadril, olho baixinho. Voltava: vendo dentro e atrás tudo era o que há muito tempo já não. Sonho. Dança. Samba. Casa. Tum.
Ps: depois de oito meses, um choro bem tocado na abertura de um festival de docs brasucas em Nova Iorque! Para ver a programação, siga o link!

03 de Novembro de 2008

ou a guerra entre as bruxas e os palhaços.
ou prefiro abóbora ou carne?
Era dia de parade. Haviam me contado que o tal halloween numa rua do Village, NYC, era uma coisa cool tipo bloquinho de carnaval no Rio. Me animei vendo as fantasias geniais (a monalisa não é um escândalo?) e depois de gravar a matéria do Saia Justa – deliciosa! no ar dia 12 de novembro! – saí toda sorridente: “cadê a batucada?” pensavam meus quadris cariocas. Aí me assalta a incompreensão do diferente. Já sei, viajar e tentar entender outra cultura é se chocar, amaciar, tentar ver de novo, colocar a lente do olho do outro e assim neste esforço antropológico, humano, sei lá o que, ver o que talvez seja ou podia ser. Mas ali não rolou de entender.
A rua onde passa o tal bloquinho é cercada por grades e mais grades e por um esquema policial. Dentro desfilam algumas pessoas que igual as de fora se fantasiaram. Não é um carnaval de Salvador em que se cobra para estar dentro da corda. Nem um do Rio que tem a proteção da bateria e que as colombinas vão se deliciando caminhando lado a lado ou esperando lá na esquina o ziriguidum. Aqui pela ordem cívica, pela segurança, proteção contra o terror se proibe uns e outros de estarem juntos. Porque é perigoso. Lembrei da frase de um amigo, que talvez nem seja dele, mas que é excelente: “a liberdade e a segurança são inversamente proporcionais”. E meu olhos brasucas tinham a sensação de que as pessoas estavam mais preocupadas em exibir suas fantasias que de fato curtirem, uhu! E aqui com a cabeça aí fiquei pensando em quão diferente são as nossas culturas.
Uma se caracteriza por uma festa de bruxas, onde se pede doces ou se ameaça travessuras; que quer mais exibir a fantasia que se alegrar por ser este outro, em que a graça é apavorar, assustar, buh! Outra tem como festa nacional a festa de dionísio, da carne, da inversão; onde o excesso – de dança, de suor, de sexo, de alcool – guia os corpos á exaustão da alegria; em que se sorri em se viver este outro, em não ser-se, em ser-se um pouco mais. A interpretação primeira disto seria de que – oh sabiás! – um é o país liberado, alegre, do sorriso, do prazer. Outro puritano, frio, das aparencias. Pode ser. Acho até que pode ser mesmo. Mas se vamos mais um pouco nos reflexos (ovo ou galinha?) um é o país em que as regras funcionam, as leis funcionam e tantas coisas funcionam e por isto é um primeiro mundo, um sonho para quem está fora. O outro é o do jeitinho daqui e dali, das cidades mal estruturadas, não arquitetadas, poluídas, traficadas.
Sei lá onde vai este post. Comparar países, (pré) julgá-los por pedaços de seu todo não me parece nada coerente. Até porque o que faço aqui é superficial, papo de botequim com mé. Mas ali, trancada para fora da alegria, sem poder chegar na entrada nem convencer o policial de entrar pela lateral (claro que meu ladinho brasileira tentou…), sem ouvir nenhum ziriguidum, reco reco, tum tum esqueci toda a admiração por Nova Iorque que sinto. Detestei a organização, o metro que funciona, a beleza arquitetônica, o tudo certo, all right!… E desejei com meus dois pés, cintura, cadeira, com toda a minha disritmia o caos, a barbárie, a confusão, o vai indo que chega, tum tum tum, quanto riso, oh! quanta alegria! ziriguidum loló cerveja na rua (já imaginou carnaval sem cerveja na rua? pois é. aqui é), fantasia de pano de beijo de suor de ai de ui. de a, é i o u y. Ok, dia 21 de fevereiro Rio!
Ps: depois do ziriguidum, no trânsito carioca - no táxi parado entre carros manobrando pessimamente - provavelmente desejarei o metro nova iorquino para voltar para casa… assim somos.
Ps2: esta foto última é do último carnaval meu. Ria!
Ps3: qual a lembrança de incompreensão – pré-conceituosa que seja – que você já sentiu fora, longe, lá?
