22 de Maio de 2008

em busca da máquina do tempo

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Conheci Giordina atrás do balcão. Pedi uma salada de fruta com granola e ela me sorriu tanto com os olhos que me apaixonei. Transpirava este amor que só as mães podem ter. Passei sei lá quantos dias almoçando e desayunando deste carinho. Ela me contou que há sete anos veio da Nicarágua. Sem grana, largou o filho de doze anos e cruzou a fronteira. E aí a velha história: ficou sem papéis, sem emprego, sem esperanças, sem sorte. Teve uma filha do lado de cá e quando contou ao companheiro da barriga ele a xingou, abandonou, esculachou. Ela sem trabalho se submeteu aos seus mal tratos um pouco. Depois começou a trabalhar num restaurante em troca de comida. Me contava entre lágrimas e olhos brilhantes. Acabou a história, fiz o check out e parti de San José.

Entrei no ônibus com uma sensação de erro. Já que não podia levar Giordina comigo e ajudá-la a colocar a vida num caminho mais sereno precisava ao menos gravá-la, fotografá-la, sei lá o quê. Viajei editando um vídeo imaginário de sua vida, tirando fotos em sua casa que só existia em minha cabeça. Decidi não deixar pendências na Costa Rica e voltei para a capital. Liguei para minha cozinheira preferida: “Posso gravar uma entrevista contigo e tirar umas fotos e então levar para o seu filho em Manágua?” O “claro” me encheu de certeza.

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Voltei ao restaurante e saí com Giordina para sua casa. Caminhava com a sensação de que seria feliz se ela fosse minha mãe - não que troque a minha por nada, relax dona Celia. Ela não me deixou pagar nenhum dos dois ônibus: “sou a cicerone”. Chegamos no seu quarto e sala feito de lata mas com detalhes de capricho: ursinhos de pelúcia, fotos, espelhinhos nas paredes de metal, um penduricalho no teto de eternit. Pegamos a filhinha que fica o dia todo na vizinha. Enquanto a mãe falava para a camêra, Tânia, uma princesinha de dois anos e meio sassaricava de um e outro lado. Enquanto a pequena desenhava rabiscos no meu caderno Giordina me contava que havia ganhado uma bolsa para cursar jornalismo aos 23 anos. “Mas aí engravidei…” Perdeu a bolsa, voltou da capital para a terra natal e abriu uma vendinha. “Só que não conseguia negar comida a quem tinha fome e quando vi estava cheia de pinduras. Quebrei”. Com uma dívida bancária largou o terceiro ano da faculdade de história, o filho e o país. Do outro lado da fronteira, sem o prometido sucesso financeiro, recebeu a notícia de que a casa foi hipotecada: “entrei em depressão”.

“Se eu pudesse fazer igual esta camera e voltar no tempo eu não abandonaria meu filho jamais. Como eu queria ter ele do meu lado”, se desmorona. Os olhos molhados gritavam na mulher que em um momento errou na escolha. “A pior coisa é ser migrante. E olha esse barraco… minha vida, minha casa eram muito melhor quando eu morava na Nicarágua”.

Giordina e Tânia me levaram no ponto. Senti saudades ali. Vontade de fazer algo, voltar com ela sete anos e sussurar: “aceite esta proposta de dar aula que a professora lhe oferece. Desencana do mito dos altos salários costa riquenhos, por favor…” Mas antes da máquina do tempo chegou o transporte. Subi e Tânia começou a chorar gritando. Ela havia pedido para vir comigo e eu disse que seria uma caminhada dura até o Mexico, mas se ela topasse… Ela topou. Mas ficou ali no ponto que se distanciava. Chorei o choro da impotência, da falta de sorte enquanto o ônibus saia da periferia de San José.giordina_02.JPG


22 de Maio de 2008

happy end para começar

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Altos edíficios envidraçados emergiam do Pacífico no país mergulhado no american way of life. “Parece os Estados Unidos”, pensou Idalgisa ao ver a foto do postal que a cliente do salão mostrou. Enquanto secava os cabelos da dona do cartão, decidiu-se: “É lá que eu vou morar!”. Arrumou as malas na República Dominicana, largou os dois filhos com a mãe e rumou para a Cidade do Panamá em 1990.

Chegou um ano depois das bombas norte americanas deporem o general Manoel Noriega - que havia sido treinado pela própria CIA nos idos 60 e 70. Para manter o poderio estadunidense sobre o Canal do Panamá bairros foram arrasados e milhares de panamenhos assassinados, mas Idalgisa nem notou: “Não estava muito destruído não”. Depois de cinco anos vivendo ilegalmente, a dominicana se casou com um panamenho. “Mas foi só para conseguir os papéis, não quero casar!”, desconversa.

Com passaporte carimbado a situação de perrengues se transformou: passou a ganhar melhor, aumentou o envio de dinheiro para a família e logo voltou à ilha caribenha para buscar a cria. Hoje o mais velho, com 23 anos, cursa fotografia na Espanha. A mãe coruja cumpriu assim o sonho das migrantes: “pensa se eu tivesse continuado lá, se ele ia poder estudar fora…”, sorri mostrando a foto do belo jovem negro no celular.

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fotos: idalgisa no salão de beleza panamenho e vista da chegada na ciudad panamá.