Gente lembra aquele vídeo de mãe e filho, Costa Rica Nicarágua, que desfilou por aqui pelo América Sem Fronteiras há um tempo? Pois é, ele está num concurso online! A rádio Canadá numa admirável iniciativa criou um festival de vídeos e podcasts sobre migração, não é o máximo?
Os cinco vídeos melhor votados até o dia 12 vão para a semi final! A Giorgina parece ir bem! Mas cantar vitória antes dá azar: então ajudem eu, ela e Israel a passarmos para a semi final! Clique aqui e depois divulguem o link, coloquem muitas estrelinhas no rate e façam figuinhas! Espero em uma semana chamá-los para a próxima etapa! Para o alto e avante! Vamos juntos?
Está no ar um concurso de curtas e podcasts sobre migração!
Na quarta semana a Giorgina e o Israel (eles de novo! viva!) estarão online e aí faço uma propagandinha aqui para levarmos os dois para as semi finais!
Mas vale visitar já! o site e conhecer olhos, ouvidos e vozes de pessoas de todo o mundo preocupadas com as causas dos caminhantes! São 10 curtas em francês e 10 em inglês por semana. Confiram!
Acabava de falar o bambambam da migração latinoamericana. Metade do auditório levantou para tentar algum contato. Eu fazia parte desta metade. Fui ficando atrás, aproveitando para escutar as perguntas e pedidos em quase off. Faltava uma e era eu. Ela tinha um casaco vermelho em cima de um vestido vermelho em cima da calça jeans. Os olhos brilharam e o punho se manteve firme: “eu estou criando um movimento de mulheres migrantes”. Não era bem isso, mas chamou minha atenção. A guerreira então sentou a uma cadeira de mim, do lado oposto do alemão do post que virá. Cochichando disse que queria falar com ela um pouco, depois. Sentamos juntas para o almoço do tal seminário. Uma de frente para outra quase num espelho. Ela 27. Eu 28. Ela Elizabeth. Eu Eliza. Ela rodando um doc sobre emigradas. Eu propondo um doc sobre emigradas. Ela com aquela coisa de acreditar num sonho, num desejo. De olhar no fundo dos olhos dele e falar: “sairás do plano das idéias, oh idéia”. Eu também, e cada vez mais, amém. Ela migrou seis meses para os EUA. Só no dia seguinte, porque quando o encontro é assim e é possível há de se almoçar de novo, me contou dos perhaps do caminho. Ela migrou por crises inadministráveis no momento. Demissão, fim de namoro, família se desintegrando. Foi para poder sair do redemoinho da vida. Da vida que lhe escapou das mãos. Foi por isso que se pôs em movimento. Na solidão, nos passos, foi se reconstruindo. No norte trabalhou como nunca havia trabalhado. De garçonete de um lado para garçonete no outro. Um dia chegou no trabalho e o chefe disse: “assina o ponto e vamos para a minha casa”. Ela disse “não”. Insistiu no “não”. E não foi. Das cantadas começou a ouvir desaforos: “deixa a sua irmã na minha jaccuzi e está tudo resolvido”. Foi nos chefes do chefe (era uma franquia) e acusou o abusador. Ele inventou mentiras e ela sentiu medo. Um dia chegou no trabalho e ele, a esposa, um suposto advogado e um suposto da migração a aguardavam: “fala publicamente que mentiu e tudo seguirá bem. caso contrário te deportamos”. Elizabeth foi ao banheiro, do celular da amiga ligou para a mãe dela, da amiga. Se acalmou, um pouco, o quanto podia. Saiu e disse que não sairia dali: “então vamos te deportar”, “eu tenho visto”, “mas não pode trabalhar”, “quem disse que eu estou trabalhando? tem algum papel assinado?”. Não tinham. Venceu o cinismo divertido. Porque um patrão que contrata ilegais para pagar menos chamar a deportação é piada de mau gosto. Mas as amigas de Elizabeth que não tinham o visto estampado de turista, ou a coragem rasgada da atriz não haviam chegado tão longe. Haviam ido a casa do patrão. Uma a uma foram se confessando, lamentando, desabafando. Sem detalhes porque a culpa, o asco ou a vergonha não permitiam. O processo da mexicana continua rodando nos EUA. “Soube que outras duas meninas que entraram lá agora, que foram cantadas já denunciaram ele também, aproveitando o processo”. Mas depois de tudo Elizabeth se encontrou com Elizabeth. Não precisava mais estar lá para estar consigo. Voltou.
Hoje, dona de si, dos passos e sorrisos toca seus projetos intensos. Co-dirige uma obra com um espanhol, prepara seu doc de emigradas, das amigas que continuam lá por cima. Um dia veremos a vida que ela editou projetada em algum festival. Prometemos ir para Tijuana juntas. Pensamos em juntar forças. Por hora brindaremos – me voy que és hora do terceiro encontro!
Ps: Elizabeth é a segunda personagem do próximo Saia por Aí: dia 03/09 na GNT!
A menina com a flor amarela na cabeça, o vestido lilás e a sombrinha florida carregava olhos cinzas de quem já não quer mais. Andava tentando livrar-se deles e a cada passo caiam cacos de já não. não mais. Lembranças de dias que não deveriam, não devem, ser lembrados. Aos poucos a mirada se coloria de lilás, de amarelo, de florido, de verde e vermelho. De vida, de sonho. Ela nasceu na França mas a mãe veio das Arábias. A matriarca nunca aceitou não poder ser o que era. E para sê-lo teve que ir. Cruzou a Espanha, cruzou as culturas distantes, tirou as roupas: “eu vim do caminho” me disse a filha. Veio dos passos que buscam mais. A mãe pobre, migrante ralé, começou catando coisas. O dom das artes ficou em alguma lata com o sonho do brilho. Os cinco filhos vivos, dos seis que pariu, puderam dar-se ao luxo de ser mais que sobreviventes. Fouzia sabia da sorte. E por isso lutava contra a tristeza, lutava contra o tempo que não lhe permitia quarenta horas em vinte quatro. E ela sim brilhava: circo, teatro, trabalho social, estudos, e mais, e mais. Mais. Mas era tudo tanto que um dia cansou. Caiu na cama e o frio parisiense congelou os planos. Esfriou os pés. Chorou pelas provas que não lhe garantiam dez. Paralisou pelo amor que não foi, não tanto quanto deveria. Sempre pode mais. Sempre poderia. Cansou de não ser-se. Mas já não sabia. Foi ficando: “queria parar de existir”. “O que é diferente de querer morrer”. Isso ela me disse assim como quem diz. Como quem sabe bem uma e outra coisa. Ela queria virar ar e ir. Ir dali. E então cruzando o parado uma faísca de esperança lhe chegou por email. Ela arrancou o talvez e calçou as meias. e seguiu. Foi. Protegendo-se do sol e entregando-se ao passado presente das ruínas, a francesa de todo o mundo caminhava em busca de si. Ia até que irá. Ah, mas irá.
Talvez, já foi.
Beijo Fouzia. Boas sombras e muito sol!
Ps: Fouzia é personagem, linda, da próxima matéria do Saia Justa.
A matéria dos filhos sem mãe - “Sociedade de filhos tristes” - está nas bancas e um trechinho na web. Para quem quer saber um pouco mais das consequências familiares da migração, siga o link!
Ontem fiquei sabendo que o vídeo da Giorgina e do Israel (lembra deles?) que editei na correria para um concurso terá sua primeira exibição pública em Quebec: se alguém estiver por lá no dia 18 de setembro me conte que eu passo a programação. Não resisti e posto um pedacito dele aqui em primeiríssima mão!
A namorada de Donar se foi. Com a ajuda da irmã cruzou de Honduras para os States. Dois anos depois combinou com o namorido que se ele chegasse até a fronteira norte do México ela e a irmã pagariam para um coiote cruza-lo. Assim ele saiu com conterrâneos seus, alguns que já haviam feito o caminho. Cruzaram a Guatemala e aguardaram o trem em Tapachula, no Chiapas mexicano há cinco anos. Na mesma cidade encontro Donar depois costurando bolsas para guardar celular no Albergue Bom Jesus. Buscando o tom comecei a perguntar sua história até chegar no ponto em que o trem freiou de repente e Donar, desprevenido, caiu de cima do vagão e assistiu a navalha dos trilhos lhe arrancarem as pernas.”Foi uma hora ali sozinho. Até que um homem de uma cidadezinha passou e me socorreu. Eu lembro da voz dele mas o rosto não sei porque eu já não via nada, só claridade.” Foi para o hospital e o primeiro mês foi de depressão, “a vontade de morrer era maior que a de viver”. Sem auto-piedade foi buscando no silêncio força. “Até que achei força com meu amigo invisível” e olha para o poster de Jesus Cristo na parede da sala de costuras. “Mas como foi na recuperação, você teve algum amigo ou alguém da família junto?”, pergunto depois de medir cada palavra. “Não” e pausa pensando um pouco: “Mas isso é melhor porque alguém da família ia ficar com dó da minha situação, querendo me ajudar de qualquer jeito. Sozinho eu descobri minha força, montei uma nova vida”. A fala de Domar contava desgraças com olhos doces e gargalhadas divertidas: “Não sou vítima” repete convicto.
O marido de Alicia vivia há quatro anos em Houston. Saudoso vendeu o carro e tudo que tinha e pagou 12 mil dólares para um coiote transportar a mulher e a filha de quatro anos para os Estados Unidos. E assim as duas saíram no dia 30 de novembro de 2004 de Juayua, região Ocidental de El Salvador rumando para o norte. Antonio, pai de Alicia passou um mês sem receber notícias delas. “Eu e minha mulher ficamos doentes, nos falaram que elas iriam direto e que do México voariam para os Estados Unidos”.
Um dia um homem com uma voz exigente ligou para Antonio a meia noite. Pediu 800 dólares para que ajudasse a filha doente. Depois de pedir passou o gancho para Alicia: “estou bem pai, estou bem.” Antonio ficou mais tranqüilo e enviou os 800 dólares no dia seguinte. Passados dois dias o coiote ligou novamente e pediu outros seiscentos dólares. Antonio enviou o dinheiro e assim outras quatro vezes: “já estava bem endividado, mas o que podia fazer?” Alicia então escapou do hotel e ligou para o pai. Contou que estavam presas no quarto sem receber comida enquanto o coiote bebia o dia inteiro. Pediu outros mil dólares para que a mãe do coiote cruzasse até os Estados Unidos com elas. Depósito feito chegaram a terra do Tio Sam. Pagaram um tanto mais para chegar em Houston e em 14 de fevereiro de 2005 acabou a saga de Alicia e o sofrimento de seus pais em El Salvador.
A menina de 23 anos então começou a trabalhar numa pizzaria ganhando US$ 6,50 por hora. Hoje já ganha três dólares mais a cada sessenta minutos. No último ano o marido se juntou com uma americana e Alicia se mudou da casa de dois quartos – de 1.200 dólares - para um quarto de 400 na casa-de-não-sei-quem. A filhinha que já fala bem inglês e acaba o primário fica com os vizinhos conterrâneos (da cidade de Sonsonate, ao lado da bela Juayua) enquanto a mãe trabalha. Assim Alicia paga as contas, freqüenta uma igreja evangélica e envia 200 dólares mensais para os pais. “Isto nos ajuda muito”. Antonio dos 510 dólares mensais que ganha como professor recebe 240 líquido. “Com o que ela envia compramos comida”. Quando pergunto como é viver longe da filha, da saudade, Antonio muda o tom de voz, começa a responder e engasga. Se levanta, sai da sala. Sinto vergonha de ter feito aquele senhor se lembrar do pior que sentiu. Ele volta depois de um minuto: “Ficamos doentes com tudo isso, o preço emocional que eu e minha mulher pagamos é muito alto. Então oramos, oramos muito porque é só isso que podemos fazer”. Não podia mais nada perguntar. Agradeci. E lamentei.
Em San Salvador tive a sorte de cruzar com um festival de filmes sobre migração no Centro Cultural Espanha. Por dez horas seguidas fiz uma maratona de viagens através de ficções e documentários. Um deles eu realmente gostei: o doc do alemão Uli Stelzner cruza o México com os indocumentados escutando suas histórias e sonhos.
O que achei mais bacana é o respeito com que Uli trata seus personagens: pergunta com franqueza, sem dó nem arrogância. Posto aqui um trecho do filme para que outros possam embarcar na viagem. E bem, ele viajou sozinho com sua camerita, me identifiquei bastante… Semana que vem sou eu quem subo no trem! Hasta!
ps: sorry, as legendas do doc em espanhol estão em alemão… Mas acho que dá para acompanhar bastante.
ps2: a madre soltera cochilando me arrepia a alma…
O táxi chegou na rua escura, na periferia da caótica Manágua. Embaixo da árvore, pouco acima do novo rio que corria por toda a cidade pingado dos temporais furacânicos, estava Sherlyn Paola Velásquez me aguardando. Bati o olho e soube que ela era ela. Havia assistido o filme protagonizado pela pequena uns centímetros de altura atrás. El Camino é a história de Saslaya, uma menina que cansada da vida dura de catar lixo e dos abusos de seu avô parte da Nicarágua em busca da mãe que migrou para a Costa Rica e desapareceu.
“Pode entrar em minha humilde casa” sorri me conduzindo para fora da viela de barro. Sua priminha correu para nos cumprimentar na grade até o teto que separa a varanda do mundo de fora. No sofá mostrei para Sherlyn a vídeo matéria que produzi para a TAL (quando estiver online linco aqui) em que a diretora Ishtar Yasin conta que não se sabe em que momento o filme vira documentário e em que momento volta a ser ficção. Os olhos da menina inundaram. Me concentrei para afastar o urubu jornalístico que adora sangue e choro e lembrar que estava na frente de uma menina de 13 anos que aos três viu sua mãe migrando para nunca mais voltar - nem mandar uma carta, nem uma ligação, uma notícia de “está difícil mas estou viva”, um grito de “montei nova família e não quero mais saber de vocês, porra!”. Sherlyn Paola só ouviu silêncio.
Ela é um dos milhares de filhos que se despedem das mães que fogem do segundo país mais pobre da América Latina (o ranking é encabeçado pelo Haiti) em busca de trabalho. As madres vão com o plano de mandar dinheiro para casa, para melhorar a vida dos filhos na Nicarágua. Mas ás vezes do outro lado da fronteira só encontram não - como a personagem Jessica citada há alguns posts - e aos poucos cortam o contato com a família. Outras não suportam a esquizofrenia de estar dos dois lados da linha ao mesmo tempo e também desaparecem.
No filme Saslaya escolhe uma solução menos feliz que a que Sherlyn tem optado. Sua personagem real não vai em busca da mãe mas parece, apesar da pouca idade, ir em busca de si mesma vorazmente. A menina estuda teatro dês de pequenininha, gosta de cantar, de dançar. Quando crescer quer ser psicóloga: “quero entender a gente, escutar, ajudá-los a resolver seus problemas”. Teve dificuldades para conseguir o visto para a Costa Rica para as filmagens mas agora já se prepara para cruzar a fronteira de novo para assistir a estréia de seu filme em agosto. Suas frases vem sempre pontuadas com uma mirada terna - ás vezes decidida ás vezes de uma tristeza que vem de longe, longe. A linda me levou de volta ao ponto de táxi: “me emociono muito, sou assim”, se despede. Suerte Paola!
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
Busca
Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos