09 de Novembro de 2008

Fronteira de cima

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Sempre tive um medo de tanto viajar, de estar longe: Perder a linha de quem fica, a rotina, perder. Penso sempre na vó do lado de lá, nos pais, nas irmãs, nos amigos. Quando penso que posso estar longe e não vê-los partir para a fronteira de cima, bem acima de todas estas que cruzo com meus passos, me paraliso. No começo desta viagem a mãe de minha melhor amiga, a mãe que me recebeu em seus braços e sua casa quando migrei para São Paulo passou para a dimensão do ar. Já era esperado, tristemente esperado. Estava na Costa Rica, numa praia linda, e passei o dia andando, vendo água, respirando. Mandando meu amor, minha gratidão para tia Lia, como numa oração.

Agora no ônibus, voltando da casa de um tio amado em DC para Nova Iorque recebo uma ligação brasileira. Notícia ruim chega rápido, já sei. A voz da irmã tenta não dizer mas por fim conta do outro tio, lá de baixo do mapa, Vila Velha: Indo comprar camarão para sua pescaria teve um tu tum e parou o peito.

Tio Allemand, o grande pescador piadista que alegrava as tardes de Iriri: espero que os camarões cheguem fresquinhos no céu e que a pescaria seja boa. Que os peixes sejam grandes e macios e que não falte cerveja gelada.

Abraço aqui de longe com muita saudade e muito amor minha prima Lubi - irmã dos verões adolescentes, meu sobrinho Gui, tia Maria Lucia, vó Maria, primo Fábio. Muito amor e muita paz. E um brinde ao lindo e querido tio por sua passagem gargalhante pela terra. Amém.


26 de Julho de 2008

Medo no Saia Justa…

Lembra aquele textinho que escrevi sobre medo… pois bem, para afastá-lo de mim um pouquito propus este vídeo para o Saia Justa.

Para quem não viu, lá vai!


30 de Maio de 2008

deixe me ir, preciso andar…

ou só mas bem acompanhada

ou cadê minha pistola?

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Viajar sozinha é uma experiência de explorar para fora e para dentro. Se caminha descobrindo os medos e desejos ao passo que se escuta o que tem que ser e de onde fugir. E conto que ser mulher sozinha na América Central nem sempre é gostosinho. Na primeira saída que dei no Panamá por la noche levei uma mãozada na bunda em pleno farol, numa avenida deserta. Antes de ontem quando entrava no primeiro ônibus nicaraguense um homem alto, de camisa azul e chapéu de boiadeiro me cantou (ou algo parecido): “senta aqui do meu lado para me esquentar”, disse em tom de ordem e não de chaveco. Sentei o mais longe que pude me esquivando de olhares. Concentrada fazia cara de quem não tinha medo, de quem acha muito normal dormir com todo seu equipamento e corpo desprotegido num ônibus cheio de homens de outra cultura. Fingindo não me aterrorizar com um homem de chapéu e cinto de boiadeiro que se sente no direito, apenas pelo fato de ser homem e estar a frente de outro ser, menor, feminino, de dar ordens de seus desejos em alto e bom som.O ônibus, disse o chofer, deveria parar em Managua uma da madruga. Eram três e nada. Como a estrada estava péssima – e péssima neste caso não é superlativo se não constatação sóbria – e a todo tempo se parava para subir sacos de feijão, de banana, cestas de palha achei que tudo bem o atraso. A Nica com quem havia trocado meia dúzia de palavras então soltou a bomba: “mudaram o caminho e não vão passar em Managua”. Simples assim. As 3h30 da manhã o motorista pára numa feira que começava a se montar, com duas dúzias de homens distribuídos no breu: “aqui vai passar um ônibus para Managua, vocês podem esperar”. Com a cara inchada das dormidas saltitantes (havia saído de San José 5h30 da matina) perdi metade de meu espanhol e toda a classe e dei de louca: “que feo. Vas a dejar dos chicas acá? Como dije una cosa y cambia?” Sei lá mais o quê gritei com 23 quilos de roupas nas costas e dez quilos de câmeras e computador na mochila da frente. No fim voltamos para o ônibus e quando cruzamos um que ia de verdade verdadeira para Managua o motorista nos levou na porta e pagou a passagem.

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Cinco e pouco da manhã cheguei. Totalmente sem humor, com uma cara que nem era minha. Tive aquela vontadezinha de chorar no ombro de alguém mas como achei que a recepcionista da pousada não entenderia tanta intimidade de uma nova hóspede resolvi só dormir – esta é uma das coisas mais importantes para mim numa viagem: nunca jamais fique cansada nem durma menos do que seu humor solicita. Durante todo o dia fiquei com a sensação de “aqui não”. Só escutava “cuidado com isso”, “ojo com aquilo”, “por ali não pode”, “peligroso”, “peligro”, “ojo”. Metade era o que deve ser, a outra metade acho que atraí por estar com a alma medrosa. Sei que mandei fazer cópias de foto e a máquina quebrou – briguei com o atendente. Já tinha brigado com o taxista. E antes que brigasse comigo também resolvi escutar a tal da intuição. Fiz a entrevista que estava marcada com a menina Paola (papo de um post logo mais), marquei outra que me é importante (com o filho de Gorgina!) para o dia seguinte de manhã e bye bye. Fujo para a cidade vizinha, linda e colonial; de lá armo o que falta da capital. Busco um lugar para dizer “aqui sim” e quedarme sin miedo. Se não de nada vale ir tão longe. E se há uma coisa boa, bem boa, em ser mulher é permitir-se aguçar o tal do sexto sentido. E uma coisa linda em estar sozinha é mudar o destino sem pedir permissão. Nos vemos em Granada! Boa viagem, porfa…