14 de Agosto de 2008
Mil coisas.

O dia de ontem começou estrainho. Andava na zona 10 da Cidade Guatemala, uma das áreas mais bacanas da capital. No ouvido meu mp3 cantarolava transformando meus passos num videoclipe. Olho para procurar um táxi na batida da batera; vejo os passos da mulher da frente no ritmo do baixo, o carro acelera no refrão. Me sinto a cantora caminhando em busca de sei lá quê e desconecto do mundo real. Enquanto uma coisa meio eletrônica me fazia lembrar a primeira vez que escutei a tal música em casa, em Sampa, um homem me tomou o radinho da mão, quase levou o dedo de brinde, e junto com seu parceiro atravessaram a avenida correndo: “pero está roto!” gritei prevenindo de que não teriam muito lucro com o roubo. Quase ri, porque já nos entendíamos pouco, eu e o mp3 semi quebrado, e continuei o videoclipe, naquele pós música em que o ruído da cidade sobe de volume e a protagonista acaba sua participação em slow motion. Entrei num táxi sem bem entender que tinha sido roubada finalmente (lembra que há dois dias foi por um triz? Agora foi, mas estava com minha câmera na mochila e continuei com ela lá… tudo lindo! E estas são as fotos prometidas do dia do quase!) e fui para a entrevista com Walda Barrios.

Ela, feminista que foi candidata a vice presidência da Guatemala não apenas estuda a questão da migração como viveu a guerra civil do outro lado da fronteira, no Chiapas/México. Entre tantas coisas interessantes que falou uma me fez reacender um monte de sinapses. Ela disse que com a assinatura do acordo de paz, em 1996, depois de quinze anos de vida em San Cristobal não teve vontade de voltar. Sua filha também não quis e hoje vive nos Estados Unidos. O marido e o filho quiseram. Ela acabou voltando porque não queria abrir mão de sua vida a dois, do parceiro da sua vida. Eu já havia escutado estudos sobre isso: as mulheres quando migram logo criam redes, se relacionam com os vizinhos, constroem novos vínculos afetivos, viram daquela terra mesmo. Os homens ficam na nostalgia do que foi, do país distante, do que não tem. Não que seja sempre assim, vejam bem…, mas isto tem se apresentado como uma tendência em minhas andanças. Vou estudar mais para em dezembro preparar uma matéria sobre o tema, lá do lado de cima. Mas voltei pensando nas redes. Fiz mais tantas coisas, sem música, snifs, e a noite já cansada me chega um email que deu outro sabor ao dia: a Dolores deu notícia!
Lembra a menina linda que deu a luz a Bianca Sofia num albergue mexicano? Pois bem, ela já chegou no norte do México. Teve um febrão de 40 graus conseqüência de uma infecção por não ter descansado e comido direito depois do parto. A ambulância veio e ela foi internada. Felizmente o amigo que fez no albergue lá embaixo e que se ofereceu de acompanhá-las até os EUA, Alejandro, lhe trata como bem merece. No hospital descobriram que ela era hondurenha e disseram que iam deportá-la. Ele então se ligou e “sequestrou” a amiga. Agora Dolores se recupera enquanto Alejandro faz as mamadeiras, as comidas e lhe ensina história e inglês. Juntam dinheiro para um coyote cruzá-los para os Estados Unidos, sem ser pelo deserto nem pelo rio, para não colocar em risco a pequena Sofia. Fiquei com o coração na mão de imaginar aquela menina tão doce e linda e frágil lá doente com sua bebê, tão longe da família. E ao mesmo tempo fiquei emocionada de receber notícias. Que as duas e também seu anjo protetor Alejandro cruzem a linha e formem uma rede, uma nova vida no norte! E que estes azares do caminho fiquem pelo caminho… Sorte!

08 de Agosto de 2008

Hoje volto para os dias de migração depois de uma pausa para editar matérias para a Televisión America Latina e fazer o próximo video para o Saia Justa (quarta que vem na GNT!).
Já passei dos quatro meses de estrada e a verdade é que começava a me anestesiar, tipo, “ah, que bonito, ahã, bonito”. Afinal toda semana era uma nova maravilha a ser descoberta. Mas no primeiro “chicken bus” que entrei na Guatemala me deu um clique! Agora começou outra viagem! gritaram meus olhinhos. As mulheres mayas no banco da frente riam com um tempo diferente do meu capixaba/carioca/paulistano.

Os olhares tinham uma doçura, um quê que já não lembrava. As línguas, 22 incompreensíveis, me faziam sentir meio que na Ásia. Com seus traços orientais indígenas e uma tipo saia comprida e reta de um tecido duro, bem amarrada na cintura, com três voltas de cinta prendendo, apertada mesmo, me faz lembrar o andar de uma chinesa. As blusas (guipil) coloridíssimas, cada vila com seu bordado típico, no meio das paisagens me lembram fotos de plantações do outro lado do mundo. Bonito! Bonito…

Foram dias de Antigua e de Lago Atitlan. Uma cidade colonial linda cercada por vulcões e um lago azul bem azul com outros três vulcões - são 33 na Guatemala. Deixo algumas fotos para dar um gostinho do que escrevo. Hasta!


americano do norte, americana do centro

eu com meu marshmelow (como escreve isso?) vulcânico!

mickey e as ruinas de antigua (an?)

jesus, menina maya, ruínas, vulcão e walt disney (an? an?)

07 de Agosto de 2008

Sentei na mesa de café da manhã do luxuoso e lindo hotel Casa Palopó. Veio a gerente, pediu licença, sentou. Já ensaiava minhas perguntas quanto ao número de quartos, perfil de hóspedes, qual é a alta estação quando Sandra começou a falar do poder do feminino, feminismo, Simone de Beauvoir e Foucalt. Arregalei os olhos, senti o silêncio vulcânico e esqueci todo e qualquer papo de praxe com gerentes de hotéis. Pincelamos sobre cultura maya, envelhecer, auto empoderamento, menopausa, obrigação social de ter um hômi do lado. Sandra, quarentona linda, citou sei lá quem e sua teoria de que quando entendemos o nosso fluxo, nossa missão, tudo flui. E assim me senti ali. Terminamos o papo no jantar, onze e tanto, desenhando um projeto juntas. Adiei minha ida para capital e no dia seguinte fomos de Palopó para o outro lado do Lago Atitlán. San Pedro é a vila dos mochileiros: sexo, drogas, diversão e bons preços, dizem. Fomos procurando um xamã maya e acabamos na casa de uma curandeira e “osseira”.

Vicenta ela chama. Começou contando que seu dom veio num sonho, depois de quase destruir o casamento porque o marido não aguentava mais a mulher doente todo o tempo. Para se curar Vicenta tinha que curar também. A mulher abriu a porta de sua casa recém construída por um gringo que virou seu discípulo e em cinco minutos havia resumido a vida. Contou do “quase” estupro que sofreu na última consulta médica para curar suas dores. Seus olhos molharam: “nessa hora da minha vida eu não sentia mais nada”. Contou de como colocou os ossos do sogro no lugar, depois do genro, depois do marido. Contou
como uma mulher bem branca e alta, que usa uma bata compriiiida, chegou em seu sonho e lhe ensinou a fazer tudo que faz. Contou da vizinha que sonhou que ela poderia curar seu filho que sofria de mal olhado e de como ela curou o pequeno. Curou outro outro outro outro até que sonhou que podia curar. Mais lições oníricas brotavam da boca da mulher maya que se esfroçava para falar o espanhol.
No final pedimos para ser curadas também: quem depois de todo o papo não lembra de um probleminha? Não contei o meu. Ela foi me massageando com um ovo de galinha e então disse para o cunhado numa língua bonita e ele me traduziu: “você quer fazer tudo muito bem feito, e se não sai do jeito que você quer você fica assim, tão cansada”. Vicenta diz que é uma voz que fala por ela estas coisas. Eta vozinha danada…

04 de Agosto de 2008
Era uma bolsinha pretinha de bolinha coloridinha. Estavamos juntas há muito tempo. Quando não queria mochila nem peso na vida saíamos só as duas para passear. Ela cuidava das coisas materialmente importantes. E eu cuidava dela. Assim era. Hoje depois de tirar todo o dinheiro que o caixa automático me permitiu guardei tudo nela. Tentei tirar um pouco mais mas o caixa estava com defeito e eu com atraso. Fomos para a van e nem coloquei a grana no esconderijo secreto onde fica o dinheiro que não será usado nas próximas 30 horas. Quase três horas de Antigua Guatemala a Panajachel e veio o cais do lago Tikal. Que imensidão linda.

Sem almoçar às 4 da tarde fui comprar belisquetes para devorar no barco: banana, biscoito de aveia, suco de pêssego e um chocolatinho, afinal são dias de tpm. Entrei no barco, comi, adorei a vista. Cheguei em San Marcos onde iria para uma pirâmide, um centro de yoga e meditação para respirar mais e centrar mais e descobri que minha amiga de bolinhas não estava.
Revira dez vezes a mochila, dá uma choradinha. Explica para o barqueiro do Titanic (fala sério se isso é nome de barco). Revira. Espera o próximo barco. Agradece aos turistas israelenses sensibilizados que ofereceram dinheiro emprestado. Uma choradinha. Outro barco, sentido inverso. Agradece ao mexicano-guatemalteco que se ofereceu pagar o barco. Volta. Agradece ao barqueiro que aceitou que eu pague depois, um dia. E claro, alguém gostou da bolinha e levou ela de amiga. Chora mais um pouquinho, pensa nos planos a b c d. Papai, mamãe e maninha provam que estão tão perto mesmo tão longe. E no fim sobrevivi, um pouco mais pobre mas com mais experiência (re). E então decidi colocar dicas simples, algumas óbvias, de viajante. Assim também ajudo a umas gatinhas que tem me escrito pedindo dicas de viagem, lugares e bláblá.
- nunca ande com mais dinheiro que o que gastará nos próximos, sei lá, dez dias;
- mas nunca ande com menos que para os próximos dois; sabe como é caixa eletrônico com defeito na cidade e nenhum amigo por perto;
- além disso deixe uns cinquenta dólares escondido dos outros e de você mesma em algum canto da bagagem para em caso de “ai, oooh, shit” ter como pagar um ônibus, hotel, jantar e chocolatinho anti depressivo;
- não pense em viajar sem dois cartões de crédito internacionais, de dois selos diferentes; antes de sair do país ligue para a central de atendimento e autorize que eles funcionem para compra e saque no exterior (sim, eles ficam bloqueados se você não fizer isso);
- guarde um cartão com o passaporte numa destas pochetes internas; quando for viajar com toda a bagagem coloque ela embaixo da roupa; quando estiver em hotel esconda ela dentro de alguma parte secreta da bagagem e deixe no quarto; se for hotel bacana guarde no cofre; se for chinfrim guarde dentro do dentro de algo;
- ande com o outro cartão, uma cópia do passaporte incluindo a cópia da página com o carimbo de entrada no país em que você estiver e um documento xis com foto;
- deixe na carteira o dinheiro do dia e um extrinha pelas dúvidas;
- estude um pouco o lugar onde você vai para ter noção dos preços e não ser tratada como tão tonta; eu uso o lonely planet e ele dá dicas de quanto será o táxi da rodoviária até não sei onde por exemplo; também se informe de qual será o câmbio da moeda (na entrada da guatemala eu desci do ônibus dormindo e dancei na troca de dinheiro; o cara não me deu nem metade do que deveria; então já vá com um cálculo mais ou menos de quanto tem que receber pelo xis que você trocará na chegada);
- normalmente o melhor cambio é feito pela operadoras de cartão de crédito mesmo, que usam o oficial; então saque em cada país o que gastará já na moeda local (se eu tiver falando besteira alguém me conte e me fale o que é melhor… mas é isto que eu faço…);
- evite chegar de noite nos lugares; se for chegar já deixe algum hotel reservado;
- deixe as coisas mais ou menos planejadas para não correr o risco de ficar sem hotel onde queria ou perder aquela festa tradicional porque só viu a data depois;
- não deixe tudo assim tão armado a ponto de não poder trocar todos os planos se o vento soprar noutra direção – se você escutar falar de não sei quê incrível ou conhecer alguém ótimo que estará onde você a princípio não estaria;
- se estressar, for passado para trás, brigar na rua, o que for… tente entrar num lugar simpático, pedir um café, coca, água, suco e relaxe. Depois continue, cuca fresca!
Acho que é isso. Alguém dá mais?

24 de Julho de 2008
(continuação gigante do prólogo)
(Subo num triciclo com a ajuda da mulher que gosto. Tem que te cobrar 5. ele me cobra cinco. É um homem com cara de bom homem. Chega na casa de la mujer - apoyo y promoción para las mujeres en situación de prostituición y migración. Carmen me recebe. Fala pouco. Vem uma niña tão linda, com cara de indiazinha de hollywood. Carmen chama matilde. Só saberia seu nome bem depois. Só sabia que estava em situação de prostituição e que agora estava ali com os filhos. Ela vem com um no colo. Logo vem outra pequena. Matilde vai falando com um olhar sério. Parecia uma anestesia)

eu to aqui porque lá em La Maquina não tem trabalho, então minha irmã disse para vir que tinha trabalho para mim num bar. Mas eu não dei certo lá, não consegui fazer bem não. Para minha irmã parece que é fácil, ela é boa. Mas ela bebe muito e eu não gosto de vê-la assim. Ela fala para eu beber mas tenho os meus filhos. Se fico bêbada este aqui vai chorar fazer o que for e eu não vou escutar. Não bebo. Pedi ajuda para ela porque queria voltar para casa, 50 só para ônibus mesmo, só para eu voltar. Mas ela não quis me dar. E ela disse que queria me ajudar. Se quisesse ia me ajudar agora. Porque eu não me adaptei. As crianças de dia ficavam na casa da cunhada da minha irmã. De noite iam para lá. (mas quanto vc ganhava?) dependia de quanto fizesse. Era 50 por cada. 10 ia para a casa. Devia ser 60 e 10 para casa, e assim eu ficava com 50. mas ninguém paga. Então é 50 e eu ficava com quarenta (quarenta é dez reais). E foi neste momento que eu conheci as irmãs e elas me convidaram para vir aqui. já tem um mês que estou aqui, elas me ajudam, me tratam bem. To bem.(mas este foi o final da fala de matilde. isto foi o que me contou quando perguntei desde quando estava ali. Antes ela começou a falar sem que eu perguntasse. Numa voz limpa, educada. Nela eu confiava. Tinha cara de boa gente, sincera. Gente sincera que deu azar desde muito tempo.) quando eu estava gravida deste pensei em dá-lo. A mulher então me levou para a casa dela, me dava comida. Mas depois eu fui me arrependendo. As pesoas diziam que era para vender. Que vendiam para matar. Aí a mãe dela (da mulher que queria o bebê) me disse que faziam coisas ruins. Mas elas já não me deixavam sair. Mas eu fugi. E tive este aqui (fernando está no seu colo fechando os olhos e se deliciando com uma mamadeira. Depois bem depois entederia como foi gerado o pequeno. Depois conto). Mas a outra eu dei. Eu estava na capital. Tava díficil a vida. então a inspetora me ofereceu de cuidar da menina. Que a vida ia ser melhor. Eu assinei os papéis. Depois me arrependi e tentei pegar a menina de volta. Mas aí no juiz ela me disse que eu batia nela, que tratava mal. Que eu já tinha assinado. (que idade ela tinha?) tinha cinco. Hoje já tem doze. Mas quando foi adotada já tava cumprindo sete. (mas calma, onde que vc assinou os papéis?) no juiz, depois na embaixada aquela, dos estados unidos, depois num outro lugar (direitos humanos? Pergunta carmen na cadeira ao lado). Isso, me fizeram um monte de pergunta lá. Mas quando minha filha estava indo ela pediu para me ligar. Disse que estavam bem que os novos pais gostavam muito dela. Que eles enrolavam o cabelo assim (passa a mão entorno da cabeça). E aí ela foi para Israel. (mas não era estados unidos?) pois é, não sei, no fim foi israel. Eles me prometeram que me iam mandar sempre foto dela. Mas é mentira. Nunca mandaram. E quando ela me ligou ela disse agora a gente está se separando mas pode ser que um dia a gente se encontre de novo. Ou que um dia a gente se esqueça uma da outra. Mas eu sou sua mãe, eu nunca vou te esquecer. E hoje eu fico pensando se um dia ainda vou encontrar minha filha. Se ela me esqueceu. falam que ela um dia vai me procurar mas ela está muito longe. e eu fico pensando, será que minha filha está viva? porque depois me falaram que vendem estas crianças para usar os órgãos em pessoas velhas. será que minha filha está viva (matilde continua com sua voz doce mas seus olhos choram. derretem a frieza que a merda da vida lhe deu). agora já não, mas eu sempre sonhei com a minha filha. porque ela era pequena para saber se a gente era boa ou não. será que ainda vou ver minha filha? será que ela está viva? eu fico perguntando se a minha filha está viva? (choro junto um pouco, com quase tudo engolido para continuar prestando atenção) e desculpa, mas é a verdade, a outra filha que eu dei eu não senti isso, foi só com essa. (que outra filha?). a que nasceu e eu dei. (que idade, é mais velha ou mais nova que esta? aponto para melissa de dois anos). é mais velha que esta mas mais nova que a outra. (chega maria fernanda de oito. quantos anos? ela quase não lembra, mas depois lembra). hoje deve ter uns quatro. dei o nome de matilde abigail. me disseram que iam tirar o matilde e deixar o abigail. mas esta dei assim que nasceu então não me apeguei muito, a outra já era grandinha né? mas disseram que depois vendem estas crianças. então eu perguntei para a inspetora se era verdade. ela disse que não, que eles davam para adoção e me mostrou uma pasta cheia de fotos assim. e me prometeram mandar as fotos. quando os pais dela vieram aqui ficaram seis meses com ela e me mandaram uma foto (corte no tempo). quando o pai viu a foto falou que ia brigar para ter a filha de volta. que a gente tinha que brigar. eu disse que eu não podia porque tinha assinado todos os papéis e que se ele queria brigar era bom ir com muito dinheiro para o advogado. mas antes ele não acreditou que era filha dele. quando soube que eu estava grávida foi embora. não quis saber, disse que não era dele. depois que viu a foto que fez isso. (mas calma, este pai é o pai dela que vc disse que está tendo problema – ela tinha dito que tinha problema com o pai da melissa). não é outro. o pai dela a gente ficou junto. um dia fiquei grávida. aí caiu um animal no poço e tinha que ir lá tirar a água e limpar. me falaram para eu não fazer isso que era perigoso. então chamei ele. ele foi todo mal educado e então eu fui sozinha. aí ele brigou muito comigo porque eu perdi o bebê. ficou bravo. depois quando ele soube que eu estava grávida de novo me falou coisas ruins, que não era dele. depois que nasceu foi para os estados unidos. mandava cem dólares a cada dois meses. aí um dia ela ficou doente, muito doente e eu pedi dinheiro. ele falava que ia mandar e nunca mandava. aí um dia disse que se deus queria leva-la então que assim fosse. eu fiquei muito brava, parecia que ele queria que a menina morresse. depois me mandou umas senhas para ir tirar dinheiro mas eu nem fui. porque parecia que ia dar azar. mas nossa relação foi errada desde o começo. acho que é um castigo porque a coisa não era certa. ele tinha duas mulheres. todo mundo dizia que ela ia me dar uma surra mas não. a gente sempre se encontrava. no banco, no supermercado no onibus. a gente já teve até que sentar uma do lado da outra, mas ela nunca disse nada não. (não aguentei e ri um pouco. carmen também. até matilde riu) então não aceitei o dinheiro dele mas tudo que queria era salvar minha filha. então o pai deste (o que mama a mamadeira) me disse para não me preocupar que ele me ajudaria. me deu 400 e eu levei ela no médico. infecção no intestino mas já estava no figado também. voltei e ele pergutou se estava tudo certo. eu disse que na verdade não que ainda faltavam uns remédios ele me deu mais duzentos e disse para eu gastar sem dó. e aí só estivemos duas relações e eu engravidei (calma, vocês transaram para que vc pagasse a dívida perguntou meu lado burguesinha tonta com espanto escondido sem acreditar). isso, mas só duas vezes e eu fiquei grávida. era muito azar eu fiz aquilo para salvar minha filha, não era justo. e então eu dava soco na barriga, me maltratei mesmo. fiz de tudo para perder. mas não. e ele nasceu com problemas psicológicos. dormia e de repente lhe faltava ar ele fazia um barulho e começava a chorar muito. viu? assim. e o médico me disse que era trauma. mas ele ainda é muito pequeno, disse. mas aí ele explicou que era do tempo da gravidez. não sabia que isso existia. e aí ele curou meu filho e disse que eu tinha que pedir desculpas até que ele me desculpasse. e a verdade é que agora eu amo muito ele (e olha para ele com cara de mãe que ama muito ele. Aí foi quando perguntei como ela tinha parado ali e voltamos para o começo do texto).
(fiquei tonta. via aquelas crianças e aquela matilde de traços bonitos, de 33 anos maltratados. lamento. lamento. impotência dela na vida. falta de exemplos. daí surgem outras crianças. quem são? a mãe abandonou aqui. quatro. uma espoleta chega virando estrelas bem viradas. vejo eu criança ali. olha aqui olha aqui olha aqui implora a sapeca dando estrela e virando de ponta cabeça. são quatro as que ficaram. há quatro dias. mamãe disse que voltava. mas já tem quatro dias disse a mais velha depois enquanto comíamos o macarrão e feijão que matilde me convidou a comer na hora em que estava saindo. mas isto já é outra história.)

22 de Julho de 2008
(liguei e a irmã me disse que amanhã e domingo estariam todas fora. que não era de prache mas como eu estava de passagem abriria uma exceção para me atender. era sexta feira fim do dia. acabava de cruzar a fronteira méxico guatemala. briguei na saída porque na entrada me informaram que os sei lá 20 dolares que pagaria seriam válidos para depois quando eu voltasse para o méxico. e na saída me pegaram o papel. usei todos os argumentos racionais que juro que faziam sentido. não existia racional só a lei professada por homens armados. Lei mal escrita que deixava o papel informando o contrário do que ela era. quando o inspetor disse para eu abaixar o tom baixei. mas continuei brigando… em tom baixo. quando disse que chamaria o tenente vi que aquilo só ia fazer com que eu me sentisse mais otária e eles mais poderosos. aqui somos nós que mandamos, não você. não era mesmo. saí sem humor. um triciclo me ofereceu de levar. 
Soube que ele estava cobrando a tarifa gringa estúpida mas aceitei para não começar outra briga. pedi um hotel seguro e ele me levou para uma espelunca de um tipo com uma cara pouco segura. vi o quarto com paredes sujas e cama nojenta. 160. agradeci e falei que não queria. cada passo que dava o preço baixava 10. saí e o cara do triciclo se ofereceu de me levar noutro, num bom. eu disse que até poderia pagar aquilo mas não gostava de como eles tinham colocado o dobro do preço de princípio só porque eu era gringa. saí um pouco irritada. subi. ele me disse que cobraria 30 em vez dos 20, sendo que o preço disso seria 5 (era a tarifa 400% para gringas apressadas que brigam na fronteira). agradeci e disse que iria a pé. falou não tudo bem, te deixo num bom aqui. espelunca de primeira. abriu um quarto com paredes ainda mais sujas – uma marca expressionista de uma mão na parede chamou a atenção, os cinco dedos ali - no fundo do estacionamento. 150. para mim é muito. temos de 75. sobe escadas decrépitas até um mais sujo, nojento. penso em mim escrevendo no meu mac-book-pro-2.2-duo-core-sei-lá-o-que naquele lugar. penso neu saindo dali e deixando meu equipamento no quarto seguro. saio. agradeço. até a porta do hotel o mesmo quarto foi oferecido por quarenta. agradeço e em baixo tom, até simpática fui, digo que era uma pena, se tivessem me falado este preço de início eu ficaria. respiro e lembro que quanto pior me coloco piores coisas atraio. está tudo bem. é só uma cidade de fronteira cheia de pessoas que fazem tráfico de gente e de drogas. em que a corrupção é a lei. já sabia disso antes de sair de casa. então pronto. pôr do sol lindo do lado direito da praça, no fim da rua. busco olhares com amor para pedir uma informação. uma mulher com olhos saltados de quem já viu tudo e pouco importa. não. um homem que não. respiro. ar dentro. ar fora. que bom que boa parte de minha bagagem está na cidade da guatemala. um olhar doce, achei! entro. era algo da paróquia. o homem de bom olhar, miguel, não sabe de hospedagem. mas a moça que ia saindo com sua barriga de nenem sabia. bem, só pode ser o don carlos. chego e havia até recepção com preço por escrito para que tarifa gringa e local sejam a mesma. um menino diz 175. y con descuento? uma mulher me olha e diz 160 é o mínimo. soube que tudo tem que ser barganhado na guatemala. e gosto dela. tem cara de uma mulher de verdade. subo. a porta abre e me revela o quarto mais lindo da viagem. claro que não é. mas agora é. deixo o mac bok pro e todo meu tesouro pessoal – minha produtora e passaporte – no quarto sem nóias. isso é que não tem preço. saio para buscar o contato das irmãs que trabalham com prostituição. o mesmo miguel me dá o número. compro um chip para meu celular. ligo. e é aqui que começa a história. mas o post ficou grande. o prólogo está feito. amanhã vem o que é.)
