02 de Outubro de 2008
Ou o dia em que fui Caetano.
Ou olha eu aqui de novo no novo!

Como um pouco de esquerda, um pouco revoltada, um tanto que foge dos filmes hollywoodianos para ver qualquer outro de fora do circuito que sou cruzei para o norte. Toda a chatice da fronteira, onde um homem branco e grande e gordo bem gordo, com seu uniforme de policial e seu copo de alguma coisa 700 ml - casting perfeito dos filmes de LA - me fez todas as perguntas que já me haviam feito - de novo - tirou todas as digitais que já haviam tirado - de novo.

Passado o esperado entrei num ônibus destes que se visse num dos movies que não gosto reclamaria: “estereotipa tudo esta maldita indústria do cinema”. Primeiro um motorista que tinha cara de mexicano mas que não era e que me ajudou a repensar o caminho porque o furacão que passou por ali fechou algumas estradas; no final – porque até chorar baixinho chorei quando não sabia para
onde ir no maior estilo i am lost in america – ele se despediu: “tu tienes un problema: és muy inteligente, very smart. Hace más preguntas de lo que yo puedo responder”. Fiquei surpresa com a crítica e entrei noutro ônibus guiado por um negão que fazia piadas com seu sotaque do sul que eu não entendia. Nada. Não, não andem de ônibus nos Estados, lhes digo com a propriedade de quem andou de ônibus na Nicarágua. Aqui te cobram muito e te oferecem pouco – lá pelo menos te cobram pouco. Mas naq
uele you are wellcome inusitado fui vendo os filmes B sentarem do meu lado. Em um trecho uma mulher obesa brigava com a filha sempre que ela fizesse qualquer coisa - qualquer. O xingamento começava no stop e acabava no parate! sempre com tapas entrecortando as palavras. Uma hora olhei para ela com cara de stop e ela me retribui com seu olhar de lentes azuis em olhos latinos um “to afim de brigar, vai encarar?” Desviei o olho sem lente e que de tanta cor ficou preto para o outro lado da janela. Por ali passavam lagoas, lagos, florestas destas bem verdes mas com os galhinhos finos do norte. Nas beiras lojas grandes-gigantes onde se vende tudo-em-muito e por-pouco. Cruzavam carros grandes-gigantes-novos. Entravam meninos bonitos com tatuagens, meninas de cabelos coloridos, senhoras de olhos azuis, multidões de obesas que reabasteciam seus sonhos nos burguer kings do caminho, negros, línguas inglesas e espanholas. Tudo era muito. Tudo foi indo nos estereótipos e no fantástico até parar em New Orleans – depois, bem depois, afinal as horas também foram muitas - onde os superlativos do bom gosto passaram a habitar meus olhos ouvidos boca quadril.
Na rua pretos com seus instrumentos douro enchiam o corpo das brancas de sensualidade. Elas desciam até o asfalto num requebrar que deixaram meu liberalismo brasileiro encabulado. Com o taco mexicano na mão olhei para o lado disfarçando a timidez. Ali do lado orientais devoravam suas também comidas mexicanas e bêbados de todas as cores sacolejavam.
Ali eu era Caetano. Saí do Brasil torcendo para o Chico – as vezes parece que
discutir os dois é como estar na mesa de bar falando de flaflu – mas ali, no meio daquilo tudo que era tudo e tudo eu amei Caetano.
Pela primeira vez eu era ele.
Ps: esta é a música em que fui Caetano!
24 de Julho de 2008
(continuação gigante do prólogo)
(Subo num triciclo com a ajuda da mulher que gosto. Tem que te cobrar 5. ele me cobra cinco. É um homem com cara de bom homem. Chega na casa de la mujer - apoyo y promoción para las mujeres en situación de prostituición y migración. Carmen me recebe. Fala pouco. Vem uma niña tão linda, com cara de indiazinha de hollywood. Carmen chama matilde. Só saberia seu nome bem depois. Só sabia que estava em situação de prostituição e que agora estava ali com os filhos. Ela vem com um no colo. Logo vem outra pequena. Matilde vai falando com um olhar sério. Parecia uma anestesia)

eu to aqui porque lá em La Maquina não tem trabalho, então minha irmã disse para vir que tinha trabalho para mim num bar. Mas eu não dei certo lá, não consegui fazer bem não. Para minha irmã parece que é fácil, ela é boa. Mas ela bebe muito e eu não gosto de vê-la assim. Ela fala para eu beber mas tenho os meus filhos. Se fico bêbada este aqui vai chorar fazer o que for e eu não vou escutar. Não bebo. Pedi ajuda para ela porque queria voltar para casa, 50 só para ônibus mesmo, só para eu voltar. Mas ela não quis me dar. E ela disse que queria me ajudar. Se quisesse ia me ajudar agora. Porque eu não me adaptei. As crianças de dia ficavam na casa da cunhada da minha irmã. De noite iam para lá. (mas quanto vc ganhava?) dependia de quanto fizesse. Era 50 por cada. 10 ia para a casa. Devia ser 60 e 10 para casa, e assim eu ficava com 50. mas ninguém paga. Então é 50 e eu ficava com quarenta (quarenta é dez reais). E foi neste momento que eu conheci as irmãs e elas me convidaram para vir aqui. já tem um mês que estou aqui, elas me ajudam, me tratam bem. To bem.(mas este foi o final da fala de matilde. isto foi o que me contou quando perguntei desde quando estava ali. Antes ela começou a falar sem que eu perguntasse. Numa voz limpa, educada. Nela eu confiava. Tinha cara de boa gente, sincera. Gente sincera que deu azar desde muito tempo.) quando eu estava gravida deste pensei em dá-lo. A mulher então me levou para a casa dela, me dava comida. Mas depois eu fui me arrependendo. As pesoas diziam que era para vender. Que vendiam para matar. Aí a mãe dela (da mulher que queria o bebê) me disse que faziam coisas ruins. Mas elas já não me deixavam sair. Mas eu fugi. E tive este aqui (fernando está no seu colo fechando os olhos e se deliciando com uma mamadeira. Depois bem depois entederia como foi gerado o pequeno. Depois conto). Mas a outra eu dei. Eu estava na capital. Tava díficil a vida. então a inspetora me ofereceu de cuidar da menina. Que a vida ia ser melhor. Eu assinei os papéis. Depois me arrependi e tentei pegar a menina de volta. Mas aí no juiz ela me disse que eu batia nela, que tratava mal. Que eu já tinha assinado. (que idade ela tinha?) tinha cinco. Hoje já tem doze. Mas quando foi adotada já tava cumprindo sete. (mas calma, onde que vc assinou os papéis?) no juiz, depois na embaixada aquela, dos estados unidos, depois num outro lugar (direitos humanos? Pergunta carmen na cadeira ao lado). Isso, me fizeram um monte de pergunta lá. Mas quando minha filha estava indo ela pediu para me ligar. Disse que estavam bem que os novos pais gostavam muito dela. Que eles enrolavam o cabelo assim (passa a mão entorno da cabeça). E aí ela foi para Israel. (mas não era estados unidos?) pois é, não sei, no fim foi israel. Eles me prometeram que me iam mandar sempre foto dela. Mas é mentira. Nunca mandaram. E quando ela me ligou ela disse agora a gente está se separando mas pode ser que um dia a gente se encontre de novo. Ou que um dia a gente se esqueça uma da outra. Mas eu sou sua mãe, eu nunca vou te esquecer. E hoje eu fico pensando se um dia ainda vou encontrar minha filha. Se ela me esqueceu. falam que ela um dia vai me procurar mas ela está muito longe. e eu fico pensando, será que minha filha está viva? porque depois me falaram que vendem estas crianças para usar os órgãos em pessoas velhas. será que minha filha está viva (matilde continua com sua voz doce mas seus olhos choram. derretem a frieza que a merda da vida lhe deu). agora já não, mas eu sempre sonhei com a minha filha. porque ela era pequena para saber se a gente era boa ou não. será que ainda vou ver minha filha? será que ela está viva? eu fico perguntando se a minha filha está viva? (choro junto um pouco, com quase tudo engolido para continuar prestando atenção) e desculpa, mas é a verdade, a outra filha que eu dei eu não senti isso, foi só com essa. (que outra filha?). a que nasceu e eu dei. (que idade, é mais velha ou mais nova que esta? aponto para melissa de dois anos). é mais velha que esta mas mais nova que a outra. (chega maria fernanda de oito. quantos anos? ela quase não lembra, mas depois lembra). hoje deve ter uns quatro. dei o nome de matilde abigail. me disseram que iam tirar o matilde e deixar o abigail. mas esta dei assim que nasceu então não me apeguei muito, a outra já era grandinha né? mas disseram que depois vendem estas crianças. então eu perguntei para a inspetora se era verdade. ela disse que não, que eles davam para adoção e me mostrou uma pasta cheia de fotos assim. e me prometeram mandar as fotos. quando os pais dela vieram aqui ficaram seis meses com ela e me mandaram uma foto (corte no tempo). quando o pai viu a foto falou que ia brigar para ter a filha de volta. que a gente tinha que brigar. eu disse que eu não podia porque tinha assinado todos os papéis e que se ele queria brigar era bom ir com muito dinheiro para o advogado. mas antes ele não acreditou que era filha dele. quando soube que eu estava grávida foi embora. não quis saber, disse que não era dele. depois que viu a foto que fez isso. (mas calma, este pai é o pai dela que vc disse que está tendo problema – ela tinha dito que tinha problema com o pai da melissa). não é outro. o pai dela a gente ficou junto. um dia fiquei grávida. aí caiu um animal no poço e tinha que ir lá tirar a água e limpar. me falaram para eu não fazer isso que era perigoso. então chamei ele. ele foi todo mal educado e então eu fui sozinha. aí ele brigou muito comigo porque eu perdi o bebê. ficou bravo. depois quando ele soube que eu estava grávida de novo me falou coisas ruins, que não era dele. depois que nasceu foi para os estados unidos. mandava cem dólares a cada dois meses. aí um dia ela ficou doente, muito doente e eu pedi dinheiro. ele falava que ia mandar e nunca mandava. aí um dia disse que se deus queria leva-la então que assim fosse. eu fiquei muito brava, parecia que ele queria que a menina morresse. depois me mandou umas senhas para ir tirar dinheiro mas eu nem fui. porque parecia que ia dar azar. mas nossa relação foi errada desde o começo. acho que é um castigo porque a coisa não era certa. ele tinha duas mulheres. todo mundo dizia que ela ia me dar uma surra mas não. a gente sempre se encontrava. no banco, no supermercado no onibus. a gente já teve até que sentar uma do lado da outra, mas ela nunca disse nada não. (não aguentei e ri um pouco. carmen também. até matilde riu) então não aceitei o dinheiro dele mas tudo que queria era salvar minha filha. então o pai deste (o que mama a mamadeira) me disse para não me preocupar que ele me ajudaria. me deu 400 e eu levei ela no médico. infecção no intestino mas já estava no figado também. voltei e ele pergutou se estava tudo certo. eu disse que na verdade não que ainda faltavam uns remédios ele me deu mais duzentos e disse para eu gastar sem dó. e aí só estivemos duas relações e eu engravidei (calma, vocês transaram para que vc pagasse a dívida perguntou meu lado burguesinha tonta com espanto escondido sem acreditar). isso, mas só duas vezes e eu fiquei grávida. era muito azar eu fiz aquilo para salvar minha filha, não era justo. e então eu dava soco na barriga, me maltratei mesmo. fiz de tudo para perder. mas não. e ele nasceu com problemas psicológicos. dormia e de repente lhe faltava ar ele fazia um barulho e começava a chorar muito. viu? assim. e o médico me disse que era trauma. mas ele ainda é muito pequeno, disse. mas aí ele explicou que era do tempo da gravidez. não sabia que isso existia. e aí ele curou meu filho e disse que eu tinha que pedir desculpas até que ele me desculpasse. e a verdade é que agora eu amo muito ele (e olha para ele com cara de mãe que ama muito ele. Aí foi quando perguntei como ela tinha parado ali e voltamos para o começo do texto).
(fiquei tonta. via aquelas crianças e aquela matilde de traços bonitos, de 33 anos maltratados. lamento. lamento. impotência dela na vida. falta de exemplos. daí surgem outras crianças. quem são? a mãe abandonou aqui. quatro. uma espoleta chega virando estrelas bem viradas. vejo eu criança ali. olha aqui olha aqui olha aqui implora a sapeca dando estrela e virando de ponta cabeça. são quatro as que ficaram. há quatro dias. mamãe disse que voltava. mas já tem quatro dias disse a mais velha depois enquanto comíamos o macarrão e feijão que matilde me convidou a comer na hora em que estava saindo. mas isto já é outra história.)
22 de Julho de 2008
(liguei e a irmã me disse que amanhã e domingo estariam todas fora. que não era de prache mas como eu estava de passagem abriria uma exceção para me atender. era sexta feira fim do dia. acabava de cruzar a fronteira méxico guatemala. briguei na saída porque na entrada me informaram que os sei lá 20 dolares que pagaria seriam válidos para depois quando eu voltasse para o méxico. e na saída me pegaram o papel. usei todos os argumentos racionais que juro que faziam sentido. não existia racional só a lei professada por homens armados. Lei mal escrita que deixava o papel informando o contrário do que ela era. quando o inspetor disse para eu abaixar o tom baixei. mas continuei brigando… em tom baixo. quando disse que chamaria o tenente vi que aquilo só ia fazer com que eu me sentisse mais otária e eles mais poderosos. aqui somos nós que mandamos, não você. não era mesmo. saí sem humor. um triciclo me ofereceu de levar. 
Soube que ele estava cobrando a tarifa gringa estúpida mas aceitei para não começar outra briga. pedi um hotel seguro e ele me levou para uma espelunca de um tipo com uma cara pouco segura. vi o quarto com paredes sujas e cama nojenta. 160. agradeci e falei que não queria. cada passo que dava o preço baixava 10. saí e o cara do triciclo se ofereceu de me levar noutro, num bom. eu disse que até poderia pagar aquilo mas não gostava de como eles tinham colocado o dobro do preço de princípio só porque eu era gringa. saí um pouco irritada. subi. ele me disse que cobraria 30 em vez dos 20, sendo que o preço disso seria 5 (era a tarifa 400% para gringas apressadas que brigam na fronteira). agradeci e disse que iria a pé. falou não tudo bem, te deixo num bom aqui. espelunca de primeira. abriu um quarto com paredes ainda mais sujas – uma marca expressionista de uma mão na parede chamou a atenção, os cinco dedos ali - no fundo do estacionamento. 150. para mim é muito. temos de 75. sobe escadas decrépitas até um mais sujo, nojento. penso em mim escrevendo no meu mac-book-pro-2.2-duo-core-sei-lá-o-que naquele lugar. penso neu saindo dali e deixando meu equipamento no quarto seguro. saio. agradeço. até a porta do hotel o mesmo quarto foi oferecido por quarenta. agradeço e em baixo tom, até simpática fui, digo que era uma pena, se tivessem me falado este preço de início eu ficaria. respiro e lembro que quanto pior me coloco piores coisas atraio. está tudo bem. é só uma cidade de fronteira cheia de pessoas que fazem tráfico de gente e de drogas. em que a corrupção é a lei. já sabia disso antes de sair de casa. então pronto. pôr do sol lindo do lado direito da praça, no fim da rua. busco olhares com amor para pedir uma informação. uma mulher com olhos saltados de quem já viu tudo e pouco importa. não. um homem que não. respiro. ar dentro. ar fora. que bom que boa parte de minha bagagem está na cidade da guatemala. um olhar doce, achei! entro. era algo da paróquia. o homem de bom olhar, miguel, não sabe de hospedagem. mas a moça que ia saindo com sua barriga de nenem sabia. bem, só pode ser o don carlos. chego e havia até recepção com preço por escrito para que tarifa gringa e local sejam a mesma. um menino diz 175. y con descuento? uma mulher me olha e diz 160 é o mínimo. soube que tudo tem que ser barganhado na guatemala. e gosto dela. tem cara de uma mulher de verdade. subo. a porta abre e me revela o quarto mais lindo da viagem. claro que não é. mas agora é. deixo o mac bok pro e todo meu tesouro pessoal – minha produtora e passaporte – no quarto sem nóias. isso é que não tem preço. saio para buscar o contato das irmãs que trabalham com prostituição. o mesmo miguel me dá o número. compro um chip para meu celular. ligo. e é aqui que começa a história. mas o post ficou grande. o prólogo está feito. amanhã vem o que é.)