Ontem fiquei sabendo que o vídeo da Giorgina e do Israel (lembra deles?) que editei na correria para um concurso terá sua primeira exibição pública em Quebec: se alguém estiver por lá no dia 18 de setembro me conte que eu passo a programação. Não resisti e posto um pedacito dele aqui em primeiríssima mão!
O táxi chegou na rua escura, na periferia da caótica Manágua. Embaixo da árvore, pouco acima do novo rio que corria por toda a cidade pingado dos temporais furacânicos, estava Sherlyn Paola Velásquez me aguardando. Bati o olho e soube que ela era ela. Havia assistido o filme protagonizado pela pequena uns centímetros de altura atrás. El Camino é a história de Saslaya, uma menina que cansada da vida dura de catar lixo e dos abusos de seu avô parte da Nicarágua em busca da mãe que migrou para a Costa Rica e desapareceu.
“Pode entrar em minha humilde casa” sorri me conduzindo para fora da viela de barro. Sua priminha correu para nos cumprimentar na grade até o teto que separa a varanda do mundo de fora. No sofá mostrei para Sherlyn a vídeo matéria que produzi para a TAL (quando estiver online linco aqui) em que a diretora Ishtar Yasin conta que não se sabe em que momento o filme vira documentário e em que momento volta a ser ficção. Os olhos da menina inundaram. Me concentrei para afastar o urubu jornalístico que adora sangue e choro e lembrar que estava na frente de uma menina de 13 anos que aos três viu sua mãe migrando para nunca mais voltar - nem mandar uma carta, nem uma ligação, uma notícia de “está difícil mas estou viva”, um grito de “montei nova família e não quero mais saber de vocês, porra!”. Sherlyn Paola só ouviu silêncio.
Ela é um dos milhares de filhos que se despedem das mães que fogem do segundo país mais pobre da América Latina (o ranking é encabeçado pelo Haiti) em busca de trabalho. As madres vão com o plano de mandar dinheiro para casa, para melhorar a vida dos filhos na Nicarágua. Mas ás vezes do outro lado da fronteira só encontram não - como a personagem Jessica citada há alguns posts - e aos poucos cortam o contato com a família. Outras não suportam a esquizofrenia de estar dos dois lados da linha ao mesmo tempo e também desaparecem.
No filme Saslaya escolhe uma solução menos feliz que a que Sherlyn tem optado. Sua personagem real não vai em busca da mãe mas parece, apesar da pouca idade, ir em busca de si mesma vorazmente. A menina estuda teatro dês de pequenininha, gosta de cantar, de dançar. Quando crescer quer ser psicóloga: “quero entender a gente, escutar, ajudá-los a resolver seus problemas”. Teve dificuldades para conseguir o visto para a Costa Rica para as filmagens mas agora já se prepara para cruzar a fronteira de novo para assistir a estréia de seu filme em agosto. Suas frases vem sempre pontuadas com uma mirada terna - ás vezes decidida ás vezes de uma tristeza que vem de longe, longe. A linda me levou de volta ao ponto de táxi: “me emociono muito, sou assim”, se despede. Suerte Paola!
Conheci Giordina atrás do balcão. Pedi uma salada de fruta com granola e ela me sorriu tanto com os olhos que me apaixonei. Transpirava este amor que só as mães podem ter. Passei sei lá quantos dias almoçando e desayunando deste carinho. Ela me contou que há sete anos veio da Nicarágua. Sem grana, largou o filho de doze anos e cruzou a fronteira. E aí a velha história: ficou sem papéis, sem emprego, sem esperanças, sem sorte. Teve uma filha do lado de cá e quando contou ao companheiro da barriga ele a xingou, abandonou, esculachou. Ela sem trabalho se submeteu aos seus mal tratos um pouco. Depois começou a trabalhar num restaurante em troca de comida. Me contava entre lágrimas e olhos brilhantes. Acabou a história, fiz o check out e parti de San José.
Entrei no ônibus com uma sensação de erro. Já que não podia levar Giordina comigo e ajudá-la a colocar a vida num caminho mais sereno precisava ao menos gravá-la, fotografá-la, sei lá o quê. Viajei editando um vídeo imaginário de sua vida, tirando fotos em sua casa que só existia em minha cabeça. Decidi não deixar pendências na Costa Rica e voltei para a capital. Liguei para minha cozinheira preferida: “Posso gravar uma entrevista contigo e tirar umas fotos e então levar para o seu filho em Manágua?” O “claro” me encheu de certeza.
Voltei ao restaurante e saí com Giordina para sua casa. Caminhava com a sensação de que seria feliz se ela fosse minha mãe - não que troque a minha por nada, relax dona Celia. Ela não me deixou pagar nenhum dos dois ônibus: “sou a cicerone”. Chegamos no seu quarto e sala feito de lata mas com detalhes de capricho: ursinhos de pelúcia, fotos, espelhinhos nas paredes de metal, um penduricalho no teto de eternit. Pegamos a filhinha que fica o dia todo na vizinha. Enquanto a mãe falava para a camêra, Tânia, uma princesinha de dois anos e meio sassaricava de um e outro lado. Enquanto a pequena desenhava rabiscos no meu caderno Giordina me contava que havia ganhado uma bolsa para cursar jornalismo aos 23 anos. “Mas aí engravidei…” Perdeu a bolsa, voltou da capital para a terra natal e abriu uma vendinha. “Só que não conseguia negar comida a quem tinha fome e quando vi estava cheia de pinduras. Quebrei”. Com uma dívida bancária largou o terceiro ano da faculdade de história, o filho e o país. Do outro lado da fronteira, sem o prometido sucesso financeiro, recebeu a notícia de que a casa foi hipotecada: “entrei em depressão”.
“Se eu pudesse fazer igual esta camera e voltar no tempo eu não abandonaria meu filho jamais. Como eu queria ter ele do meu lado”, se desmorona. Os olhos molhados gritavam na mulher que em um momento errou na escolha. “A pior coisa é ser migrante. E olha esse barraco… minha vida, minha casa eram muito melhor quando eu morava na Nicarágua”.
Giordina e Tânia me levaram no ponto. Senti saudades ali. Vontade de fazer algo, voltar com ela sete anos e sussurar: “aceite esta proposta de dar aula que a professora lhe oferece. Desencana do mito dos altos salários costa riquenhos, por favor…” Mas antes da máquina do tempo chegou o transporte. Subi e Tânia começou a chorar gritando. Ela havia pedido para vir comigo e eu disse que seria uma caminhada dura até o Mexico, mas se ela topasse… Ela topou. Mas ficou ali no ponto que se distanciava. Chorei o choro da impotência, da falta de sorte enquanto o ônibus saia da periferia de San José.
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
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Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos