31 de Dezembro de 2008
nove horas de vôo e todos os nove meses de deslocamento voltaram. irmã, cunhado e pai sorrindo no saguão. parecia que nem fazia tanto tempo. não sei se pelo skype que toda semana nos colocava frente a frente; não sei se simplesmente porque quando se tem vÃnculos muito fortes pouco se nota o tanto. São Paulo branca, garoa, grande; as ruas com os nomes que já conhecia, a compreensão de toda e cada palavra inteira - relaxando. voltar para casa - mesmo que já não tão casa, mesmo que não querendo assim tanto - é de um conforto sem tamanho. á noite o samba chorado, o quadril rebolado, a cerveja de garrafa brindada, o garçon falando português e chamando pelo nome. como se tudo tivesse sido um sonho lindo e enorme: acordei e pronto.

19 de Maio de 2008

O meu pai é capixaba. Meu avô italiano. Minha mãe carioca, filha de mineiros. O tio que mora em Washington tem uma filha em New York e a tia de BrasÃlia parte da cria em Fortaleza. Minha irmã caçula está em Niterói e a primogênita em São Paulo. Eu nasci no Rio, me criei em Vitória, estudei em Sampa. E lá fiquei até o doce de leite me levar a Buenos Aires. Mas como em um tango, voltei.
Minha famÃlia nômade e, ao contrário da maioria das personagens que desfilarão neste blog, parte em busca de cultura, estudos ou sossego. As cerca de doze milhões de mulheres latino americanas migrantes cruzam fronteiras por causas menos alegres: partem em busca de um trabalho (mal remunerado) para pagar a sobrevivência de seus filhos que normalmente ficam do outro lado da linha.
O fluxo de mulheres que viajam sem maridos, namorados ou pais começou com as européias e norte-americanas que levavam na bagagem a recém criada pÃlula anticoncepcional, nos idos 60. Três décadas depois e a saÃda de mulheres ultrapassou a de homens nos paÃses desenvolvidos. No terceiro mundo, entretanto, a proporção de 54% de migrantes do sexo masculino se mantém mais ou menos constante desde que os sutiãs foram queimados. Mas nosso subcontinente latino aparece como primeira região do sul a registrar a paridade numérica de emigrantes homens e mulheres.
A igualdade de direitos entre os sexos, entretanto, dita léguas. Bastam alguns números para se entender que a coisa anda mal: 2/3 das mulheres que chegam na fronteira do México foram vÃtimas de algum abuso sexual; as migrantes, embora com escolaridade maior que a dos homens, tem uma média salarial 30% mais baixa; 1,9 milhão de mulheres e crianças são vÃtimas do tráfico humano (uma das três atÃvidades ilÃcitas mais lucrativas do mundo). Quando soube destes tropeços senti vontade de seguir contando dos passos e pernas destas andarilhas. Assim, aqui no América sem fronteiras, acompanharemos mulheres que em sua sede de vida largam a famÃlia, os amigos e tudo que tem em busca de algo melhor.
A caminhada começa na Cidade do Panamá, onde pisei sozinha com minha (grande) mochila em março. De ônibus em ônibus, de fronteira em fronteira, de “causo” em “causo” chegaremos aos Estados Unidos. No caminho flertaremos com mulheres que colocaram toda a esperança em uma mala e se fueran. Ao mesmo tempo que reuniremos crônicas e fotos, conversaremos com artistas que pelo som, pelo traço, pelo baile e pelo grito tentam construir um continente irmão.

foto um: montagem minha de eu careteira, da mãe carioca, dos avós mineiros fotografados pelo pai capixaba.
foto dois: menininha não sabe se vai ou se fica na PenÃnsula do Osa, PacÃfico Sul da Costa Rica
ps1: estes passos foram enfeitados pela grande parceira Katarina quer Beijar (http://www.katarinaquerbeijar.com.br/) que com suas roupas charmosas recheou minha mochila!
Ps2: a parte divertida da viagem passa na GNT, a cada quinze dias no “Saia Justa”! A parte cultural na Televisión América Latina. E aqui no América sem Fronteiras lincaremos todo o percurso! Buen viaje!
