Bem, estava aqui em cima mas meio no lugar errado. Vim para Washington, a casa do poder todo assistir ao dia do novo presidente… e só tarde demais entendi que aqui não era o lugar mais animado para as eleições - de novo vim para Cosme Damião achando que era Carnaval. Mas pouco importa. Chorei de alegria vendo TV mesmo. Todos os amigos em Nova Iorque ligaram ou escreveram convidando para festas e o clima era de mudança, hope, alegria. Que delícia! Me lembrou o dia que o Lula ganhou da primeira vez; a Avenida Paulista recheada de crianças, de paulistanos, de nordestinos, de gente, de sorrisos. Lindo! Meu corpo sorridente recordou de outro dia encantado - a posse de Tabaré Vazquez no Uruguai, o primeiro presidente de esquerda de nosso hermanito: este vídeo gravei neste tal dia!
Se as mudanças serão grandes, de base? não acredito. O jogo é grande e não acho que presidente algum tenha tanto poder assim; nem se quer realmente mudar a estrutura das coisas. Mas ganhou a esperança sobre o terror! Na casa do terror! E só isso já vale tudo! Que vivam os sonhos! A fé de que sim, o mundo pode ser melhor! Assim como um nordestino é presidente do Brasil, um índio da Bolivia, um preto agora comanda o país famoso pela segregação racial. Os que eram minoria agora passeiam pelos tronos desmentindo as proibições, os impossíveis, os discursos de que “o mundo é essa merda e pronto, nem tenta que não dá”.
Que Obama presidente traga aquele gosto que provamos em nossa América Latina há pouco. Mas que a falta de mudanças imediatas, de salvadores da pátria nos tirou o sonho da mudança. Não dá para em quatro ou oito anos mudar o rumo da história torta de cinco séculos. Mas estamos indo bem - vai, não precisa de muito para notar nosso país e nosso continente florescendo. Falta muito? Falta… Mas temos melhores taxas de emprego, de educação, de divisão de renda, de saúde que quando o nosso Obama chegou em Brasília. Cheia de cicatrizes a América Central finaliza suas guerras civis e entra em anos de paz. A Bolívia com todos os tropeços e dificuldades de dentro e de fora nacionaliza o que é do povo…. e assim segue, seguimos! Que o sonho que nasce no norte ilumine a todos do sul, leste, oeste! Que nos abracemos de novo com nossos otimismos! Que o medo vá! e que cada um e todos possamos ir lutando pelo que tem que ser! Melhor! Mais! Amém!
A menina com a flor amarela na cabeça, o vestido lilás e a sombrinha florida carregava olhos cinzas de quem já não quer mais. Andava tentando livrar-se deles e a cada passo caiam cacos de já não. não mais. Lembranças de dias que não deveriam, não devem, ser lembrados. Aos poucos a mirada se coloria de lilás, de amarelo, de florido, de verde e vermelho. De vida, de sonho. Ela nasceu na França mas a mãe veio das Arábias. A matriarca nunca aceitou não poder ser o que era. E para sê-lo teve que ir. Cruzou a Espanha, cruzou as culturas distantes, tirou as roupas: “eu vim do caminho” me disse a filha. Veio dos passos que buscam mais. A mãe pobre, migrante ralé, começou catando coisas. O dom das artes ficou em alguma lata com o sonho do brilho. Os cinco filhos vivos, dos seis que pariu, puderam dar-se ao luxo de ser mais que sobreviventes. Fouzia sabia da sorte. E por isso lutava contra a tristeza, lutava contra o tempo que não lhe permitia quarenta horas em vinte quatro. E ela sim brilhava: circo, teatro, trabalho social, estudos, e mais, e mais. Mais. Mas era tudo tanto que um dia cansou. Caiu na cama e o frio parisiense congelou os planos. Esfriou os pés. Chorou pelas provas que não lhe garantiam dez. Paralisou pelo amor que não foi, não tanto quanto deveria. Sempre pode mais. Sempre poderia. Cansou de não ser-se. Mas já não sabia. Foi ficando: “queria parar de existir”. “O que é diferente de querer morrer”. Isso ela me disse assim como quem diz. Como quem sabe bem uma e outra coisa. Ela queria virar ar e ir. Ir dali. E então cruzando o parado uma faísca de esperança lhe chegou por email. Ela arrancou o talvez e calçou as meias. e seguiu. Foi. Protegendo-se do sol e entregando-se ao passado presente das ruínas, a francesa de todo o mundo caminhava em busca de si. Ia até que irá. Ah, mas irá.
Talvez, já foi.
Beijo Fouzia. Boas sombras e muito sol!
Ps: Fouzia é personagem, linda, da próxima matéria do Saia Justa.
A namorada de Donar se foi. Com a ajuda da irmã cruzou de Honduras para os States. Dois anos depois combinou com o namorido que se ele chegasse até a fronteira norte do México ela e a irmã pagariam para um coiote cruza-lo. Assim ele saiu com conterrâneos seus, alguns que já haviam feito o caminho. Cruzaram a Guatemala e aguardaram o trem em Tapachula, no Chiapas mexicano há cinco anos. Na mesma cidade encontro Donar depois costurando bolsas para guardar celular no Albergue Bom Jesus. Buscando o tom comecei a perguntar sua história até chegar no ponto em que o trem freiou de repente e Donar, desprevenido, caiu de cima do vagão e assistiu a navalha dos trilhos lhe arrancarem as pernas.”Foi uma hora ali sozinho. Até que um homem de uma cidadezinha passou e me socorreu. Eu lembro da voz dele mas o rosto não sei porque eu já não via nada, só claridade.” Foi para o hospital e o primeiro mês foi de depressão, “a vontade de morrer era maior que a de viver”. Sem auto-piedade foi buscando no silêncio força. “Até que achei força com meu amigo invisível” e olha para o poster de Jesus Cristo na parede da sala de costuras. “Mas como foi na recuperação, você teve algum amigo ou alguém da família junto?”, pergunto depois de medir cada palavra. “Não” e pausa pensando um pouco: “Mas isso é melhor porque alguém da família ia ficar com dó da minha situação, querendo me ajudar de qualquer jeito. Sozinho eu descobri minha força, montei uma nova vida”. A fala de Domar contava desgraças com olhos doces e gargalhadas divertidas: “Não sou vítima” repete convicto.
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
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Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos