O que que você conhece de cultura da América Central?
Quando a Malu Viana da Televisión América Latina me propôs produzir mini documentários sobre cultura na América do meio amei a idéia e me fiz a tal pergunta…. “Não conheço nada não….” conclui para mim mesma com um pouco de vergonha e um tanto de curiosidade. Fui repetindo a pergunta para os amigos antenados e bacaninhas e a resposta também se repetia: “conheço nada não…” Assim agarrei a idéia e aos poucos fui me embrenhando naquele outro mundo - colorido, sonoro, gingado. Foi na entrevista com Jaime do grupo Malpaís da Costa Rica que entendi que a arte no sub-continente - tão perto dos Estados Unidos e tão marcado por guerras civis - servia como elo entre os países. Fui vendo que os grupos de teatro, de dança; que os textos e as músicas serviam ali como abraço entre as pátrias muitas vezes brigadas e xenófobas. Que os artistas cruzavam com seus traços e melodias as fronteiras transparentes e desintegrantes; cruzavam sem visto, sem carimbo, iam vibrando. Fui me apaixonando por cada um dos entrevistados e sonhando com o dia que as notas entrassem na rede, rompendo as fronteiras, servindo de integraçãozinha entre nós latinos do sul com os do meio. E foi só pisar de volta aqui que as matérias chegaram. Na página da Televisión América Latina dois dos quatorze mini docs estão online. AquiMalpaís e Claudia Hernandez - que passearam pelo blog há tempos em textinhos apaixonados (siga os links!) - chegaram com voz e gestos na net! Buen provecho!
O marido de Alicia vivia há quatro anos em Houston. Saudoso vendeu o carro e tudo que tinha e pagou 12 mil dólares para um coiote transportar a mulher e a filha de quatro anos para os Estados Unidos. E assim as duas saíram no dia 30 de novembro de 2004 de Juayua, região Ocidental de El Salvador rumando para o norte. Antonio, pai de Alicia passou um mês sem receber notícias delas. “Eu e minha mulher ficamos doentes, nos falaram que elas iriam direto e que do México voariam para os Estados Unidos”.
Um dia um homem com uma voz exigente ligou para Antonio a meia noite. Pediu 800 dólares para que ajudasse a filha doente. Depois de pedir passou o gancho para Alicia: “estou bem pai, estou bem.” Antonio ficou mais tranqüilo e enviou os 800 dólares no dia seguinte. Passados dois dias o coiote ligou novamente e pediu outros seiscentos dólares. Antonio enviou o dinheiro e assim outras quatro vezes: “já estava bem endividado, mas o que podia fazer?” Alicia então escapou do hotel e ligou para o pai. Contou que estavam presas no quarto sem receber comida enquanto o coiote bebia o dia inteiro. Pediu outros mil dólares para que a mãe do coiote cruzasse até os Estados Unidos com elas. Depósito feito chegaram a terra do Tio Sam. Pagaram um tanto mais para chegar em Houston e em 14 de fevereiro de 2005 acabou a saga de Alicia e o sofrimento de seus pais em El Salvador.
A menina de 23 anos então começou a trabalhar numa pizzaria ganhando US$ 6,50 por hora. Hoje já ganha três dólares mais a cada sessenta minutos. No último ano o marido se juntou com uma americana e Alicia se mudou da casa de dois quartos – de 1.200 dólares - para um quarto de 400 na casa-de-não-sei-quem. A filhinha que já fala bem inglês e acaba o primário fica com os vizinhos conterrâneos (da cidade de Sonsonate, ao lado da bela Juayua) enquanto a mãe trabalha. Assim Alicia paga as contas, freqüenta uma igreja evangélica e envia 200 dólares mensais para os pais. “Isto nos ajuda muito”. Antonio dos 510 dólares mensais que ganha como professor recebe 240 líquido. “Com o que ela envia compramos comida”. Quando pergunto como é viver longe da filha, da saudade, Antonio muda o tom de voz, começa a responder e engasga. Se levanta, sai da sala. Sinto vergonha de ter feito aquele senhor se lembrar do pior que sentiu. Ele volta depois de um minuto: “Ficamos doentes com tudo isso, o preço emocional que eu e minha mulher pagamos é muito alto. Então oramos, oramos muito porque é só isso que podemos fazer”. Não podia mais nada perguntar. Agradeci. E lamentei.
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
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Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos