Ontem fiquei sabendo que o vídeo da Giorgina e do Israel (lembra deles?) que editei na correria para um concurso terá sua primeira exibição pública em Quebec: se alguém estiver por lá no dia 18 de setembro me conte que eu passo a programação. Não resisti e posto um pedacito dele aqui em primeiríssima mão!
Quase sempre os de fora se juntam e assim numa cozinha costa riquenha um cubano preparava comida vietnamita para los hambrientos da Argentina, Suiça e Brasil escutando música nicaraguense: nada mais cosmopolita! Enquanto garfávamos o cubano saboreava seu passado negro: “sou a favor de tudo que é ilegal”, sorria com malícia. Numa história cheia de detalhes e suspense nos contou do dia em que foi pego e algemado num galinheiro pela polícia cubana. Qual o crime? Tráfico. Tráfico de torrones… “Você tem que tratar o policial sem medo nem soberba, caso contrário se tornam sádicos”. Assim se livrou da prisão por comércio ilegal de alimentos. Em seus parentesis contava que comer carne de vaca sem autorização do Estado pode render até dez anos de cadeia e que 70% da economia está baseado na ilegalidade. Filho de fidelistas fiéis mesclava uma tristeza pelo que deixou de ser o país no pós URSS e um orgulho pela ilha da boa saúde e educação que boia no pobre Caribe. “Não queria ser de nenhuma parte, se não de Cuba!”, se infla escutando Buena Vista -“¡Oígame compay! No deje el camino por coger la vereda.”
Sabe quando uma idéia está bem no fundinho da caxola mas se esconde, não se explica? O argumento para o documentário para a Televisión America Latina (TAL) estava assim, esquivadinho mas quase vindo quando fui gravar com um dos principais grupos da Costa Rica, Malpaís. Em cinco minutos de papo pós camera com o baixista Jaime, puf!, a sinapse final! “Posso gravar o que você me disse, se não vou acordar amanhã e pensar por que não gravei…?” Gravamos dez minutos sobre os conflitos que separaram o continente, xenofobia e as iniciativas artísticas de integração dos povos (a cultura rompendo fronteiras, heis o tema!), fiz as tomas do show, disse hasta luego e me fue.
Mas acordei igual, com uma vontade de conversar mais com o tico, aqueles mistérios. Só que pé na estrada é isso aí, parti de San José e arquivei a idéia.
Com a decisão de não deixar pendências na Costa Rica voltei por Giorgina e decidi eliminar os outros perhaps costa riquenhos. Na cara dura chamei Jaime para uma breja – viajar é sensacional porque deixa mais vivo o Hoje porque amanhã é outro sotaque, outra paisagem; aqui ou é ou não vai ser. Ele topou. Fomos ao Jazz Café San Pedro, um local bacanudo com ótimo repertório todo dia.
Lá Jaime me contou que tocou no mesmo palco do nosso Chico em Honduras, “meu cantor preferido no Brasil”, fez giras por tantos cantos; falava de música de todo o continente: elogiava Villa Lobos, Gil, murgas uruguaias, salsas caribenhas. Contava que tem que trabalhar como publicitário meio período para pagar as contas (em todo o continente o mesmo, não? Artistas que para fazer arte tem que garantir o aluguel por outro lado). Me hablava de migração, integração, vulcões, ria.
Três cervejas, tantas histórias e nos despedimos. Saí leve, com aquela sensação de encontro, de estar em dia com as vontades. ¡Pura vida!, como se diz por estes lados de cima…
ps1: O post é só uma desculpinha para lincar (aqui!) um clipe do grupo. Logo mais sobe o vídeo que fiz para a TAL deles, aí linco por aqui e posto um pouco da história de Malpais. ¡Buen provecho!
ps2: vale ler o lindo texto de Jaime sobre migração para o jornal Nacion, só clicar aqui!
ps3: uma musiquinha do Malpaís relacionada com a temática migrante: Historias de Nadie
Conheci Giordina atrás do balcão. Pedi uma salada de fruta com granola e ela me sorriu tanto com os olhos que me apaixonei. Transpirava este amor que só as mães podem ter. Passei sei lá quantos dias almoçando e desayunando deste carinho. Ela me contou que há sete anos veio da Nicarágua. Sem grana, largou o filho de doze anos e cruzou a fronteira. E aí a velha história: ficou sem papéis, sem emprego, sem esperanças, sem sorte. Teve uma filha do lado de cá e quando contou ao companheiro da barriga ele a xingou, abandonou, esculachou. Ela sem trabalho se submeteu aos seus mal tratos um pouco. Depois começou a trabalhar num restaurante em troca de comida. Me contava entre lágrimas e olhos brilhantes. Acabou a história, fiz o check out e parti de San José.
Entrei no ônibus com uma sensação de erro. Já que não podia levar Giordina comigo e ajudá-la a colocar a vida num caminho mais sereno precisava ao menos gravá-la, fotografá-la, sei lá o quê. Viajei editando um vídeo imaginário de sua vida, tirando fotos em sua casa que só existia em minha cabeça. Decidi não deixar pendências na Costa Rica e voltei para a capital. Liguei para minha cozinheira preferida: “Posso gravar uma entrevista contigo e tirar umas fotos e então levar para o seu filho em Manágua?” O “claro” me encheu de certeza.
Voltei ao restaurante e saí com Giordina para sua casa. Caminhava com a sensação de que seria feliz se ela fosse minha mãe - não que troque a minha por nada, relax dona Celia. Ela não me deixou pagar nenhum dos dois ônibus: “sou a cicerone”. Chegamos no seu quarto e sala feito de lata mas com detalhes de capricho: ursinhos de pelúcia, fotos, espelhinhos nas paredes de metal, um penduricalho no teto de eternit. Pegamos a filhinha que fica o dia todo na vizinha. Enquanto a mãe falava para a camêra, Tânia, uma princesinha de dois anos e meio sassaricava de um e outro lado. Enquanto a pequena desenhava rabiscos no meu caderno Giordina me contava que havia ganhado uma bolsa para cursar jornalismo aos 23 anos. “Mas aí engravidei…” Perdeu a bolsa, voltou da capital para a terra natal e abriu uma vendinha. “Só que não conseguia negar comida a quem tinha fome e quando vi estava cheia de pinduras. Quebrei”. Com uma dívida bancária largou o terceiro ano da faculdade de história, o filho e o país. Do outro lado da fronteira, sem o prometido sucesso financeiro, recebeu a notícia de que a casa foi hipotecada: “entrei em depressão”.
“Se eu pudesse fazer igual esta camera e voltar no tempo eu não abandonaria meu filho jamais. Como eu queria ter ele do meu lado”, se desmorona. Os olhos molhados gritavam na mulher que em um momento errou na escolha. “A pior coisa é ser migrante. E olha esse barraco… minha vida, minha casa eram muito melhor quando eu morava na Nicarágua”.
Giordina e Tânia me levaram no ponto. Senti saudades ali. Vontade de fazer algo, voltar com ela sete anos e sussurar: “aceite esta proposta de dar aula que a professora lhe oferece. Desencana do mito dos altos salários costa riquenhos, por favor…” Mas antes da máquina do tempo chegou o transporte. Subi e Tânia começou a chorar gritando. Ela havia pedido para vir comigo e eu disse que seria uma caminhada dura até o Mexico, mas se ela topasse… Ela topou. Mas ficou ali no ponto que se distanciava. Chorei o choro da impotência, da falta de sorte enquanto o ônibus saia da periferia de San José.
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
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Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos