12 de Dezembro de 2008

Black Date

black-date.jpg

Sarah é destas moças sorridentes animadas que no fim da festa quando tudo indica que a noite já foi mesmo diz “só mais cinco minutinhos?”. É americana mas fala um espanhol nada gringo e gosta de um remelexo de uma forma bem latina. Ignora classificações de dia da semana e sempre aceita uma cervejinha ali, uma musiquinha lá, segunda, terça, quarta, doesn’t matter. Mas Sarah cansou de tanto ter que gastar de tempo, de cerveja, de olho buscando um gatinho do seu número na noite, nas noites, tantas noites. Aderiu a moda, nova moda, nem tão nova. Escreveu seu perfil, colou as fotos e marcou quatro dates na mesma semana. Na semana anterior cortou o cabelo, pintou, comprou roupa nova, ensaiou a chegada. Imagino que ensaiou, eu teria. Primeiro achei estranho e logo vi que na cidade maçã encontrar apê, comprar qualquer coisa ou achar namorado pela net é cotidiano. O primeiro encontro de Sarah foi ótimo, o cara era bacana, rolou sintonia. Ela saiu do jantar feliz para comemorar depois comigo e outras gatinhas ainda menos virtuais que gastamos dinheiro e horas presenciais na procura do que nunca se encontra com tantas cervejas. Brindamos o primeiro date. No segundo Sarah que é destas que curte direitos humanos e trabalha num programa de latinos quase não engoliu quando o pretendente disse que os hispanos deviam voltar para a roça de onde vieram. Ela não discutiu porque ficou paralisada mas riscou o tal da lista de talvez quem sabe outro encontro. Na noite do mesmo dia foi encontrar o pretendente de número três: “goooorgeous” repetia empolgadíssima. Mas ela que adorou ele ficou arrasada com a sensação de que ele gostou mais da garçonete que dela. Não entendeu os sentimentos do bonitão e ligou precisando de consolo. Lá fomos nós, a equipe de resgate com chopps salvar a pequena loira. Fomos num bilhar e entre tacadas e cervejas que os garçons nos presenteavam – foi uma bela noite… - Sarah foi contando detalhes. Aí meu lado brasileiro não conseguiu entender. Nada. Sarah se despediu do bonitão com um aperto de mão. Gritei em pânico: “mas isto é normal?” “O quê?” “Aperto de mão?” E não é que era? Voltei em perspectiva a vida inteira tentando encontrar um só momento em que eu tenha me despedido do gatinho que gostei com um toque de mãos: “nice to meet you”. Impossível… Achei abraços apertados, beijo no canto da boca, bicotinha e até beijo no pescoço como quem finge que não entendeu que errou a mira. E ali fiquei no ar, tentando juntar os dois lados. O do moderno que topa conhecer gente na net com toda a sinceridade de escrever “oi este é meu nome inteiro eu faço isto e gosto daquilo e quero um namorado/gatinho para sexo/o que for” que se contrapõe, se soma, se sei lá o quê a este meio puritanismo antigo dos corpos distantes, não contato, tudo preso, aperto de mão. Uhh, haja cerveja para processar….

Ps: no dia seguinte o bonitão ligou. Suspeito que ele tenha gostado mais de Sarah que da garçonete na verdade …


24 de Maio de 2008

encontros e reencontros

jaime-direita.jpg Sabe quando uma idéia está bem no fundinho da caxola mas se esconde, não se explica? O argumento para o documentário para a Televisión America Latina (TAL) estava assim, esquivadinho mas quase vindo quando fui gravar com um dos principais grupos da Costa Rica, Malpaís. Em cinco minutos de papo pós camera com o baixista Jaime, puf!, a sinapse final! “Posso gravar o que você me disse, se não vou acordar amanhã e pensar por que não gravei…?” Gravamos dez minutos sobre os conflitos que separaram o continente, xenofobia e as iniciativas artísticas de integração dos povos (a cultura rompendo fronteiras, heis o tema!), fiz as tomas do show, disse hasta luego e me fue.

Mas acordei igual, com uma vontade de conversar mais com o tico, aqueles mistérios. Só que pé na estrada é isso aí, parti de San José e arquivei a idéia.

Com a decisão de não deixar pendências na Costa Rica voltei por Giorgina e decidi eliminar os outros perhaps costa riquenhos. Na cara dura chamei Jaime para uma breja – viajar é sensacional porque deixa mais vivo o Hoje porque amanhã é outro sotaque, outra paisagem; aqui ou é ou não vai ser. Ele topou. Fomos ao Jazz Café San Pedro, um local bacanudo com ótimo repertório todo dia.

Lá Jjaime-esquerda2.jpgaime me contou que tocou no mesmo palco do nosso Chico em Honduras, “meu cantor preferido no Brasil”, fez giras por tantos cantos; falava de música de todo o continente: elogiava Villa Lobos, Gil, murgas uruguaias, salsas caribenhas. Contava que tem que trabalhar como publicitário meio período para pagar as contas (em todo o continente o mesmo, não? Artistas que para fazer arte tem que garantir o aluguel por outro lado). Me hablava de migração, integração, vulcões, ria.

Três cervejas, tantas histórias e nos despedimos. Saí leve, com aquela sensação de encontro, de estar em dia com as vontades. ¡Pura vida!, como se diz por estes lados de cima…

ps1: O post é só uma desculpinha para lincar (aqui!) um clipe do grupo. Logo mais sobe o vídeo que fiz para a TAL deles, aí linco por aqui e posto um pouco da história de Malpais. ¡Buen provecho!

ps2: vale ler o lindo texto de Jaime sobre migração para o jornal Nacion, só clicar aqui!

ps3: uma musiquinha do Malpaís relacionada com a temática migrante: Historias de Nadie