07 de Outubro de 2008
Cruzei a ponte do Brooklin de metro, a estátua da liberdade me encorajava a seguir. Apressava os passos nas ruas de Manhattan: estava atrasada para o encontro, o que sentia ser o mais importante da viagem. Já era 22h e me esperava o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o homem da venda preta… Cheguei um pouco tarde mas ainda a tempo deles me verem. O Ensaio sobre a cegueira de Saramago foi onde entendi profundamente o quanto delicioso pode ser devorar papel. Quando cheguei no quase final parei a leitura para que eles ficassem ali comigo só um pouquinho mais. Quando acabou ri. Muito. E aí fiquei com uma saudade tão - tão - grande que só agora, quase cinco anos depois mato.

Bem neste ensaio que é Blindeness, eu em Nova Iorque vendo as ruas de São Paulo em inglês, com atores de todos os lados se encontrando neste idioma e eu ali tentando entender sem legendas: tudo fez sentido. Chorei de soluços algumas vezes e saí sem entender mais nada do mundo. A cegueira branca dos personagens são as atitudes do mundo real como resposta a pobreza, como tentativa de poder, como tantas coisas que não consigo entender muito bem. Na cena em que o médico fala para a mulher: “agora a guerra vai começar” depois de tantos estupros e da morte de uma das oito do quarto saí do cinema voando: Quando a guerra só atinge as mulheres e poupa os homens é paz, né? Lembrei das migrantes que conheci no caminho até aqui. Tudo bem, no caminho a guerra é contra mulheres e homens. Mas lembrei delas ali e lembrei do livro que leio, Persépolis - que virou uma animação magnífica - que conta a vida de uma exilada iraniana que tenta entender porque só ela tem que usar véu e tantas atrocidades islâmicas.
Voltando para Blindness, as metáforas tão bem feitas de tudo, a cidade que é ela mas é qualquer uma - a São Paulo vazia e suja -, o humano visto de forma tão cética – real? Bem, é um post de quem ainda está perturbada e vai fazer outra visitinha antes de qualquer comentário sério. Mas assistam! O site em inglês é mais bonito que o em português mas neste há o blog do Meirelles que vale uma passada.
ps: será que eu gostei tanto do filme só porque amei o livro ou quem só viu o filme também gostou?
ps2: acabei de publicar e fui visitar o blog de uma amiga que conheci aqui no sem fronteiras e ela escreveu exatamente sobre o filme: vale uma visita na casa da mãe joana.
31 de Maio de 2008

O táxi chegou na rua escura, na periferia da caótica Manágua. Embaixo da árvore, pouco acima do novo rio que corria por toda a cidade pingado dos temporais furacânicos, estava Sherlyn Paola Velásquez me aguardando. Bati o olho e soube que ela era ela. Havia assistido o filme protagonizado pela pequena uns centímetros de altura atrás. El Camino é a história de Saslaya, uma menina que cansada da vida dura de catar lixo e dos abusos de seu avô parte da Nicarágua em busca da mãe que migrou para a Costa Rica e desapareceu.
“Pode entrar em minha humilde casa” sorri me conduzindo para fora da viela de barro. Sua priminha correu para nos cumprimentar na grade até o teto que separa a varanda do mundo de fora. No sofá mostrei para Sherlyn a vídeo matéria que produzi para a TAL (quando estiver online linco aqui) em que a diretora Ishtar Yasin conta que não se sabe em que momento o filme vira documentário e em que momento volta a ser ficção. Os olhos da menina inundaram. Me concentrei para afastar o urubu jornalístico que adora sangue e choro e lembrar que estava na frente de uma menina de 13 anos que aos três viu sua mãe migrando para nunca mais voltar - nem mandar uma carta, nem uma ligação, uma notícia de “está difícil mas estou viva”, um grito de “montei nova família e não quero mais saber de vocês, porra!”. Sherlyn Paola só ouviu silêncio.
Ela é um dos milhares de filhos que se despedem das mães que fogem do segundo país mais pobre da América Latina (o ranking é encabeçado pelo Haiti) em busca de trabalho. As madres vão com o plano de mandar dinheiro para casa, para melhorar a vida dos filhos na Nicarágua. Mas ás vezes do outro lado da fronteira só encontram não - como a personagem Jessica citada há alguns posts - e aos poucos cortam o contato com a família. Outras não suportam a esquizofrenia de estar dos dois lados da linha ao mesmo tempo e também desaparecem.

No filme Saslaya escolhe uma solução menos feliz que a que Sherlyn tem optado. Sua personagem real não vai em busca da mãe mas parece, apesar da pouca idade, ir em busca de si mesma vorazmente. A menina estuda teatro dês de pequenininha, gosta de cantar, de dançar. Quando crescer quer ser psicóloga: “quero entender a gente, escutar, ajudá-los a resolver seus problemas”. Teve dificuldades para conseguir o visto para a Costa Rica para as filmagens mas agora já se prepara para cruzar a fronteira de novo para assistir a estréia de seu filme em agosto. Suas frases vem sempre pontuadas com uma mirada terna - ás vezes decidida ás vezes de uma tristeza que vem de longe, longe. A linda me levou de volta ao ponto de táxi: “me emociono muito, sou assim”, se despede. Suerte Paola!