o milagre da vida
Voltei.
Vi que tinha voltado quando no posto de migração Guatemala x México perguntei para o oficial se necessitaria pagar toda vez que cruzasse a fronteira Mexico x EUA, porque eu ficaria indo e voltando e ele sem entender me pediu para explicar. Virei para o oficial do outro lado da janela, com meu passaporte em mãos do lado de lá e disse assim, sem pensar nem rir: “é que eu estarei trabalhando lá na fronteira norte: faço tráfico de armas então tenho que ir e voltar o tempo todo” e comecei a gargalhar. Ele respondeu com outra piada e depois riu também. E aí entrei no México com o humor em forma e o pé da sorte. Afinal a sorte que não é tonta costuma acompanhar os risos. (ou seriam os risos que acompanham a sorte?)
Na véspera lia “La mano del emigrante”, um livro lindo com fotos, crônicas jornalísticas sobre sobrevivientes de naufrágio e um conto sobre imigrantes na Inglaterra. Relia a parte que um acidente mata o taxista e um dos migrantes. O outro sobrevive. Triste. Choro. Eu depois de passar o posto migratório entrei numa van com outros tantos gringos de todo lado. Viajava pela janela quando a van freiou. Olho para frente e vejo um fusca vermelho com as laterais totalmente destruídas jogado entre as duas pistas.
Na frente dele um homem ensaguentado, como um fantasma, vem em nossa direção. Dois dos gringos numa rapidez admirável, saem do carro para buscar o kit de primeiro socorro em suas mochilas. Eu paraliso imaginando o segundo migrante, morto dentro do carro. Respiro e sigo. Começo a catar as laranjas e queijo e ferramenta e não-sei-mais-que espalhado pelo asfalto. Vou colocando tudo numa bolsa plástica, tentando resgatar parte da perda para o vivo-morto-vivo e vejo que o outro homem também vivia, inteiro. Consigo então me aproximar e ofereço ajuda. Começo a limpar a testa-sangue, bochecha-sangue, sobrancelha-sangue, a olheira inchada/cortada enquanto um nórdico enrola uma faixa na cabeça um pouco aberta.
O homem me olha com seu olho que por cinco-milímetros-de-sorte-dentro-do-azar continua vendo: “eu nasci de novo. hoje nasci de novo. minha vida recomeça aqui”. Uma energia que não é minha fala por minha boca e começo a bendizer sua nova vida, seus novos sonhos, sua nova sorte. O motorista nos apressa e volto para meu caminho agradecendo o final do livro que a vida me deu. Que a vida lhe deu. Esperança. Viva!
