01 de Julho de 2008

Salve San Salvador

ou Medo ao Medo

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Vim com aquele medo de quem só escutou más notícias e não sabe a dimensão do problema. Como ir para o Rio só sabeando da favela e do Comando Vermelho, sem escutar do Cristo acima de tudo ou do samba da Lapa. Pensei que ia chegar e um mara ia me aguardar na porta do ônibus. Os mara salvatrucha (MS13) ou os 18 são as duas gangues tipo o CV daqui. São uns tatuados que surgiram nos EUA para fazer frente aos delinquentes mexicanos. A política americana era deportá-los para o país de origem (El Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua) e assim chegavam em suas pátrias destruídas, muitas vezes sem familiares ou amigos porque haviam passado toda a vida no norte. Aqui se organizaram e hoje tem montada uma ampla rede de corrupção: cobram dos negociantes, das empresas de ônibus… algo que sabemos em nossas favelas daí mas em um país que viveu uma revolução e uma guerra civil recentemente. É o país com a maior concentração humana da América Central e também o maior exportador de gente – 14,5% da população está no exterior.
Com todas estas informações na caxola descobri que o ônibus com atraso de sete horas chegaria a noite. Ai… Ele foi se aproximando da capital e em lugar de ruínas de guerra, prédios pixados e gangues na esquina fui encontrando pela janela uma cidade de avenidas amplas e casas bonitas. Cheguei e peguei um táxi com um homenzinho franzino de uma simpatia contagiante. No hotel (Tazumal) a família proprietária se divertiu com meu medo. Banhei-me, li emails e desci com a barriga roncando. “Ulisses, leva ela para comer alguma coisa”, pediu Conci, a proprietária do hotel. O marido me levou de carro para saborear uns tacos mexicanos e fez um city tour pela zona. Me apresentou os restaurantes, shoppings, bares. “Por aqui você pode andar tranquila a noite, na hora que for”. Des de então caminho pela cidade como se fosse minha e me sinto em casa.
Sei que San Salvador não é o paraíso e que esta tranqüilidade em algumas zonas se deve aos seguranças particulares em cada rua (como os nossos guardinhas de rua, que passam apitando ou ficam em suas cabines, mas aqui eles tem algo tipo uma escopeta pendurada) e a chacina patrocinada pelo Estado aos maras na política chamada Mano Dura e depois Super Mano Dura. Mas isto é assunto para outro post.
O que quero dizer é que, cada vez me parece mais que as informações de violência, de terror, de pânico são um grande instrumento para que tenhamos medo. Com medo ficamos parados, não agimos, não temos esperança na nossa vida. Não nos empenhamos em transformações e garantimos que as desigualdades em favor de uma minoriazinha continuem. Simplesmente trabalhamo loucamente para garantir comida, comprar grades para as janelas, um carro para não caminharmos nas ruas tão perigosas. O prazer vai sendo esquecido. A coragem desprezada. Entrevistei no primeiro dia aqui um pesquisador, Jesus Aguilar, que me disse: “Antes lutamos por uma revolução. Não funcionou. Veio a política oposta, também não. As pessoas ficaram discrentes, ninguém mais acredita numa transformação coletiva, que juntos podem melhorar os problemas de suas sociedades. Então as soluções são individuais: é a migração. Saio daqui para resolver meu problema e para conseguir juntar dinheiro para que minha família também saia”.
Sei lá, cada vez acho mais que o medo que temos que ter é de ter medo. E assim não perder a esperança e a força de transformar nossa vida em algo mais que o piloto automático. Em algo mais que o controle remoto, o sanduíche, o emprego que te explora e que você detesta mas “não tem jeito o mercado está ruim”; as coisas que nos dizem que são as únicas opções e que sem elas passamos fome, sofremos e que, assim, não pensamos numa solução más allá, em realizar aqueles sonhos que foram sendo enterrados no final da adolescência “quando chegou a vida real”. Sem medo somos mais, é isso… Avante!
Ps: o medo é a temática da matéria que estou gravando agora para o Saia Justa… foi minha forma de exorcizar o meu, de transformá-lo em algo produtivo…




comentários dos leitores (8)

  1. Alice

    1 de Julho de 2008

    O medo como controle.
    Pode parecer paradoxo, mas a bandeira da longevidade, associada a um corpo que “não mais precisa envelhecer” (afinal são tantos os recursos que a indústria oferece, para apresentá-lo sempre jovem!) colabora ainda mais para o imobilismo. Penso assim pois a bandeira da longevidade/corpo-jovem recalcam ainda mais a idéia da morte, que atemoriza ainda mais qdo ressurge … Além disso ao retirar a noção de temporalidade da vida retira a afirmação urgente da mesma, afoga-nos numa sensação de mesmisse eterna…Afastar os fantasmas, afirmar a existência é preciso, mas sem nunca perder a ternura e as noções reais de perigo. Fechar os olhos é besteira, seja pelo medo ou pela ingenuidade.

  2.  
  3. Vivien

    1 de Julho de 2008

    O mais louco de tudo é que, quando menos nos damos conta, já introjetamos esse medo paralisante.

  4.  
  5. Anselmo

    2 de Julho de 2008

    uma vez, viajando a trabalho por Joanesburgo, na africa do sul, 10 em cada 10 pessoas que me encontravam diziam: “não vá pro centro, não vá a Soweto”.

    comprei um guia pra ir prum bairro perto do centro e não me perder. estudei o caminho, mas quando era pra virar à esquerda, dobrei à direita. Tudo foi ficando com cara de centro, com cara de centro. Cai no centro.

    “Lascou-se”, pensei.

    Na nóia, pensei qeu se eu fosse assaltado, abordado ou se qualquer coisa acontecesse eu teria uma puta história pra contar. Só serviu de alívio na hora, depois da volta eu achei aquilo bem nonsense pra se pensar… o fato é que nunca tinha imaginado que pensar no Zé Hamilton Ribeiro aliviaria.

    Forçaí!

  6.  
  7. Eliza

    2 de Julho de 2008

    *Alice, belo comentário… O jogo é esse né? adiamos tudo, tentamos congelar o que temos. imobilidade. medo.

    *temos que estar atentas Vivien…

    *Anselmo: nos momentos “lascou-se” este é meu mecanismo também. me imagino dando uma entrevista, contando da minha desgraça, que nunca pensei que ia acontecer mas que passei a entender melhor as personagens depois disto, bla bla. Cinco minutos de fama macabra e noto a besteira que estou pensando, respiro fundo e começo a cantar para espantar as idéias… também tenho o método de “cuidado comigo que sou louca” e começo a batucar a musiquinha no próprio corpo com a garrafa de água ou o que tiver para assustar o perigo… rere. tem funcionado.

  8.  


  9. 2 de Julho de 2008

    O medo é útil quando ajuda a ser cauteloso, mas sem paralisar. Sempre pensei assim… Mas confesso que ultimamente, em algumas situações, tenho me deixado tomar por esse medo coletivo… Horrível! Mas nunca é tarde pra lutar contra :)!

    Bj amiga!

  10.  
  11. Claus

    3 de Julho de 2008

    Toda vez que vou ao Ibirapuera, acho estranho o número mínimo de pessoas que encontro na rua, entre o metrô e o parque. E sei que o medo faz isso. Todo mundo só anda de carro. Um dia, por um instante, pensei: será que estou pondo minha vida em risco? Pensei em seguida: se andar por essa rua linda nesse lindo dia de sol é colocar a vida em risco, então tem alguma coisa muito errada nessa história…

    E é isso, se o medo paralisa é a vitória da morte, aliás da não-vida, e deixa de valer a pena…

  12.  
  13. grasi

    4 de Julho de 2008

    cidades de grades

  14.  
  15. América sem fronteiras » Blog Archive » Medo no Saia Justa…

    26 de Julho de 2008

    […] aquele textinho que escrevi sobre medo… pois bem, para afastá-lo de mim um pouquito propus este vídeo para […]

  16.  
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