Redes
Mil coisas.
O dia de ontem começou estrainho. Andava na zona 10 da Cidade Guatemala, uma das áreas mais bacanas da capital. No ouvido meu mp3 cantarolava transformando meus passos num videoclipe. Olho para procurar um táxi na batida da batera; vejo os passos da mulher da frente no ritmo do baixo, o carro acelera no refrão. Me sinto a cantora caminhando em busca de sei lá quê e desconecto do mundo real. Enquanto uma coisa meio eletrônica me fazia lembrar a primeira vez que escutei a tal música em casa, em Sampa, um homem me tomou o radinho da mão, quase levou o dedo de brinde, e junto com seu parceiro atravessaram a avenida correndo: “pero está roto!” gritei prevenindo de que não teriam muito lucro com o roubo. Quase ri, porque já nos entendíamos pouco, eu e o mp3 semi quebrado, e continuei o videoclipe, naquele pós música em que o ruído da cidade sobe de volume e a protagonista acaba sua participação em slow motion. Entrei num táxi sem bem entender que tinha sido roubada finalmente (lembra que há dois dias foi por um triz? Agora foi, mas estava com minha câmera na mochila e continuei com ela lá… tudo lindo! E estas são as fotos prometidas do dia do quase!) e fui para a entrevista com Walda Barrios.
Ela, feminista que foi candidata a vice presidência da Guatemala não apenas estuda a questão da migração como viveu a guerra civil do outro lado da fronteira, no Chiapas/México. Entre tantas coisas interessantes que falou uma me fez reacender um monte de sinapses. Ela disse que com a assinatura do acordo de paz, em 1996, depois de quinze anos de vida em San Cristobal não teve vontade de voltar. Sua filha também não quis e hoje vive nos Estados Unidos. O marido e o filho quiseram. Ela acabou voltando porque não queria abrir mão de sua vida a dois, do parceiro da sua vida. Eu já havia escutado estudos sobre isso: as mulheres quando migram logo criam redes, se relacionam com os vizinhos, constroem novos vínculos afetivos, viram daquela terra mesmo. Os homens ficam na nostalgia do que foi, do país distante, do que não tem. Não que seja sempre assim, vejam bem…, mas isto tem se apresentado como uma tendência em minhas andanças. Vou estudar mais para em dezembro preparar uma matéria sobre o tema, lá do lado de cima. Mas voltei pensando nas redes. Fiz mais tantas coisas, sem música, snifs, e a noite já cansada me chega um email que deu outro sabor ao dia: a Dolores deu notícia!
Lembra a menina linda que deu a luz a Bianca Sofia num albergue mexicano? Pois bem, ela já chegou no norte do México. Teve um febrão de 40 graus conseqüência de uma infecção por não ter descansado e comido direito depois do parto. A ambulância veio e ela foi internada. Felizmente o amigo que fez no albergue lá embaixo e que se ofereceu de acompanhá-las até os EUA, Alejandro, lhe trata como bem merece. No hospital descobriram que ela era hondurenha e disseram que iam deportá-la. Ele então se ligou e “sequestrou” a amiga. Agora Dolores se recupera enquanto Alejandro faz as mamadeiras, as comidas e lhe ensina história e inglês. Juntam dinheiro para um coyote cruzá-los para os Estados Unidos, sem ser pelo deserto nem pelo rio, para não colocar em risco a pequena Sofia. Fiquei com o coração na mão de imaginar aquela menina tão doce e linda e frágil lá doente com sua bebê, tão longe da família. E ao mesmo tempo fiquei emocionada de receber notícias. Que as duas e também seu anjo protetor Alejandro cruzem a linha e formem uma rede, uma nova vida no norte! E que estes azares do caminho fiquem pelo caminho… Sorte!

15 de Agosto de 2008
Lágrimas nos olhos… de novo!
Que esse povo invada (ainda mais) o norte e o transforme em algo que realmente valha a pena!
O vídeo pro Saia Justa estava ótimo! Que lindo ter prazer em ser igual! Obrigada, irmã, por nos mostrar o diferente.
Beijo, saudade e amor,
Maria.
17 de Agosto de 2008
sempre bom descobrir pessoas dispostas, simplesmente, a serem humanas.
lindo, lica!
beijo grande!
19 de Agosto de 2008
lica! tô te devendo comentários amiga.
mas ó, ontem tamito veio jantar aqui em casa e eu mostrei os vídeos pra ele… ele curtiu pacas o doc da giorgina!
saudades imensas.
beijos
20 de Agosto de 2008
Será que é sério mesmo esse lance das mulheres fazerem suas redes mais facilmente que os homens?
Hummmm…faz sentido.
Cara, cuidado você deve estar com cara de milionária, rsrsrs. Sinto muito pelo videoclipe interrompido (adorei a ambientação)
Não assisto aos programaas da GNT mas acompanho por aqui.
Acho muito triste pessoas terem que sair de suas terras por sentirem-se desterrados na sua própria terra, por causa de heranças (neo)coloniais mal resolvidas.
Contudo, acredito que o trabalho que vc está fazendo, em nos informar sobre uma realidade tão semelhante, mas ao mesmo tempo, tão distante do Brasil, é um passo para tornar essa situação menos triste.
Obrigada.
besos
22 de Agosto de 2008
Doce Eliza! Como você está? Faz um tempo que a gente não conversa… bem, pelo visto, a perda do mp3 não foi tão cruel, rsrs (ainda bem que não foi um ipod ou algo do tipo, por isso que ainda mantenho meu mp3 pobre nas ruas do Rio). Espero que mãe, filha e anjo protetor continuem tendo a benção de Deus pra dar tudo certo até os EUA. Você ainda terá mais notícias positivas sobre elas, você verá. E publicará aqui para todos comemorarem!!! =)
Posso fazer um post sobre seu blog, junto com as conversas que nós tivemos? Grande beijo! =)
22 de Agosto de 2008
Olá Eliza,
continuo acompanhando seu trabalho, por mais que as vezes fique só na leitura e não comente.
Apesar de terem levado seu mp3, do lado de cá, ficamos com a sonoridade de suas palavras. Sua capacidade de passar para o texto esta experiência é muito forte.
Parabéns!
Beijo
23 de Agosto de 2008
*irmãs: saudade é pouco…
*grasi: ta devendo nada! e que bom saber do tampico… rere.
* ana rosa: obrigada pela força querida! muito legal te ler; lembrei do nosso café na são joão…
* amanda querida! pode publicar o que quiser! mas vamos nos falar mais… to em DF agora, com bastante tempo de internet!
* leonardo: puxa… muito muito obrigada!mas calma: é leo usi, ou léozito? fiquei confusa..