23 de Dezembro de 2008

parto

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Tinha ido fazia tempo. Nem tanto no calendário mas uma vida inteira. Saiu há nove meses. Largou o Brasil e subiu no mapa. Escalou vulcões, mergulhou no atlântico, no pacífico, pegou trem, ônibus, dançou jazz. Conversou com mulheres que como ela precisavam ir. Ir. Cada semana colocava tudo de volta na mochila, reclamava da coluna e vestia sua casa sorridente: “o que vem agora?” Mais ônibus, mais prosa, mais. A cada novo outro se via-a-si. Se entendia mais. Escutava. E foi tanto se ouvindo que foi virando-se ela mesma. E de tanto ir andando entendeu que podia parar.
Parou. Pariu-se.
Conheceu gente que realmente amou; amiga de quem se sentia amiga. Com que se fazia entender e até entendia mesmo faltando tanta palavra em seu tosco vocabulário inglês. E a cada dia na vida de outono de inverno de nova iorque ia entendendo com seu corpo inteiro o que seus ouvidos escutaram na viagem toda. Entendeu cada andarilha: Georgina, Dolores, Carmen, Val, Maria, Sandra, Alba Lucia, Alicia. Foi entendendo tanto, tão forte, com o corpo todo que sua mão paralisou. Não podia escrever de outras mas ainda não entendia o que já sabia. Não com palavras. Deixou o blog e se-agarrou-se. Deixou que as sensações fossem inteiras, plum! Maior que o verbo. E quando já tinha sanduiche preferido, cadeira cativa no café vizinho e a garçonete já até chamava ela eliza de ilaiza viu que tinha que ir para trás, para baixo. Quatro dias e o avião ia-vai para a cidade que já sabia nome, população, melhor cinema; para o país que dominava a língua perfeitamente e sabia o nome de todas as capitais. Já até tinha conhecido quase todas. E aí das coisas que aprendeu lembrou que quando se anda tanto, se vai tanto a volta é algo que não existe. Já não se tem casa lá. Já não se é só de lá. Se tem uma saudade – eterna, intransponível – e o aqui. O resto é mentira.




comentários dos leitores (7)

  1. Valdirene

    23 de Dezembro de 2008

    …pois e, pra entender o que signigfica MUITO frio so com a experiencia. Dai descobrimos que o frio e mesmo uma fria que congela o corpo, a alma, o ser e ate o coracao…

  2.  
  3. Alice

    23 de Dezembro de 2008

    Que lindo texto Eliza parida no mundão-pátria-sem-fronteiras!

  4.  
  5. Vivien

    23 de Dezembro de 2008

    Pois é, minha querida, algumas vezes te disse que essa sua viagem me parecia tão fortemente interna, que era impossível pensar nela apenas como algo exógeno a vc.
    Adorei acompanhar sua jornada, que te mudou e mudou quem te leu.
    Um grande beijo e bem vinda de volta.;0)

  6.  
  7. Vini

    28 de Dezembro de 2008

    Oi Eliza!

    Parabéns pelo vídeo premiado…

    Parabéns por ser tudo o quê você é…

    Feliz 2009!

    E seja bem-vinda de volta…

    Beijos,

  8.  
  9. John940

    27 de Março de 2009

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  10.  
  11. John940

    27 de Março de 2009

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  12.  
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