22 de Agosto de 2008

o milagre da vida

Voltei.
Vi que tinha voltado quando no posto de migração Guatemala x México perguntei para o oficial se necessitaria pagar toda vez que cruzasse a fronteira Mexico x EUA, porque eu ficaria indo e voltando e ele sem entender me pediu para explicar. Virei para o oficial do outro lado da janela, com meu passaporte em mãos do lado de lá e disse assim, sem pensar nem rir: “é que eu estarei trabalhando lá na fronteira norte: faço tráfico de armas então tenho que ir e voltar o tempo todo” e comecei a gargalhar. Ele respondeu com outra piada e depois riu também. E aí entrei no México com o humor em forma e o pé da sorte. Afinal a sorte que não é tonta costuma acompanhar os risos. (ou seriam os risos que acompanham a sorte?)
Na véspera lia “La mano del emigrante”, um livro lindo com fotos, crônicas jornalísticas sobre sobrevivientes de naufrágio e um conto sobre imigrantes na Inglaterra. Relia a parte que um acidente mata o taxista e um dos migrantes. O outro sobrevive. Triste. Choro. Eu depois de passar o posto migratório entrei numa van com outros tantos gringos de todo lado. Viajava pela janela quando a van freiou. Olho para frente e vejo um fusca vermelho com as laterais totalmente destruídas jogado entre as duas pistas.

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Na frente dele um homem ensaguentado, como um fantasma, vem em nossa direção. Dois dos gringos numa rapidez admirável, saem do carro para buscar o kit de primeiro socorro em suas mochilas. Eu paraliso imaginando o segundo migrante, morto dentro do carro. Respiro e sigo. Começo a catar as laranjas e queijo e ferramenta e não-sei-mais-que espalhado pelo asfalto. Vou colocando tudo numa bolsa plástica, tentando resgatar parte da perda para o vivo-morto-vivo e vejo que o outro homem também vivia, inteiro. Consigo então me aproximar e ofereço ajuda. Começo a limpar a testa-sangue, bochecha-sangue, sobrancelha-sangue, a olheira inchada/cortada enquanto um nórdico enrola uma faixa na cabeça um pouco aberta.

milagre02.JPG

O homem me olha com seu olho que por cinco-milímetros-de-sorte-dentro-do-azar continua vendo: “eu nasci de novo. hoje nasci de novo. minha vida recomeça aqui”. Uma energia que não é minha fala por minha boca e começo a bendizer sua nova vida, seus novos sonhos, sua nova sorte. O motorista nos apressa e volto para meu caminho agradecendo o final do livro que a vida me deu. Que a vida lhe deu. Esperança. Viva!

milagre01.JPG




comentários dos leitores (5)

  1. alice

    22 de Agosto de 2008

    Que lindo relato de um acidente sem vítimas!
    Bjs, muitos belos encontros e histórias no México!

  2.  
  3. taís

    24 de Agosto de 2008

    “A vida é um milagre”, sempre.

    Tem coisas que nos acontecem e seguem nos acontecendo que parecem tanto ser ficção. E às vezes, quando na ficção, soaria tão falso… Engraçado, isso…

    Saudades, irmã! Estou pensando umas coisas aqui, preciso te mandar outro e-mail!

    boa viagem! continue sentido que a vida é um grande filme, mesmo!

  4.  
  5. taís

    24 de Agosto de 2008

    “A vida é um milagre”, sempre.

    Tem coisas que nos acontecem e seguem nos acontecendo que parecem tanto ser ficção. E às vezes, quando na ficção, soaria tão falso… Engraçado, isso…

    Saudades, irmã! Estou pensando umas coisas aqui, preciso te mandar outro e-mail!

    Boa viagem! continue sentindo que a vida é um grande filme, mesmo!

  6.  


  7. 26 de Agosto de 2008

    Amiga, como se não bastassem as emoções “previsíveis”, ainda essas que aparecem do nada (literalmente) no meio do caminho… Bom trabalho por aí, e que vc continue sempre tão poética.

    PS: senti falta dos seus posts nos últimos dias :)

  8.  
  9. Eliza

    26 de Agosto de 2008

    *tais, é exatamente isto… e muito bom quando a gente vive estes excessos, bons excessos, de realidade e ficção ao mesmo tempo né?

    *alice: brigada! está mágico a vida mexicana!

    *hosinha, voltei… vou voltar a escrever mais… estava num periodo “hacia adentro processando, aí fica dificil… tudo processado, conto!
    Beijo amiga!

  10.  
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