Indas e vindas (e voltas e revoltas)
Fazia muito calor e eu, sensibilizada com Dolores, chegava perto da linha do trem de Arriaga - Chiapas, México: “por que que essas mulheres fazem isso?”, desabafei. Sam respondeu: “não sei quem é louca se são elas ou a gente de estar aqui por opção” e riu seu riso amplo. (Estávamos no México mas nos conhecemos um dia em San Salvador.
Volto.
Um dia cheguei no café e um menino bonito desayunava. Fazia tempo que não via um daqueles e guardei a informação no meu HD. A tarde conversei com a dona do hotel, perguntando molemente que tipo de hóspedes mais dava por ali… ela foi falando quem estava até que chegou em dois que eram de Hollywood e estavam ali fazendo um filme. Bingo! pensei. No café seguinte uma mulher bonita comia sozinha; quando ia pedir meu prato ela me perguntou in english se eu não queria comer o do amigo dela que teve que sair antes do prato chegar; e agora ali estavam seus omeletes quentes e virgens. Ela ia me trazendo o prato mas eu fui mais rápida e sentei do seu lado. Sam, ela é a Sam. E o omelete que eu comia era do menino bonito do outro dia. Ela me contou que era de LA, diretora independente e estava por ali fazendo pesquisa para seu roteiro. Eu que fico carente de gente para hablar a mesma língua, um pouco da mesma cultura, sorri bastante. “Mas do que que é o filme?” “É a história de uma migrante que vai para os Estados Unidos”. Fala sério… Nos pusemos a matracar e decidimos seguir juntas para a fronteira. Ela me fazia companhia no medo e eu lhe traduzia as pessoas. Mudei todo o meu cronograma e ela adiou a volta. E lá fomos juntas.
Mas tudo isso só para chegar no “por que que essas mulheres fazem isso?”) As vezes não entendo o preço que elas pagam para o tal trabalho. E me sinto um pouco como um francês que conheci em 2003. (Não sei o nome dele, sei que era novinho, uns 20 anos. Era sua primeira viagem pelo terceiro mundo. Eu viajava pela primeira vez com uma camera. Eu e Jacques que hoje é correspondente do SBT nos formamos, rascunhamos uma idéia de doc - ampla… - e embarcamos para Bolívia. Entrávamos numa mina em Potosi com o tal francês e ele em choque viu os mineiros que tem espectativa de vida de 35 anos, 20 anos de idade mas cara de senhores; crianças trabalhando; nenhum sonho mais; vidas subterrâneas em todos os sentidos.) Ele nos olhava e perguntava: “mas por que eles estão trabalhando aqui? Por que não trabalham sei lá, num escritório?” Naquele menino vi uma ficha monstruosa caindo: pela primeira vez ele saia da bolha da vida como devia ser e se metia no submundo da falta de opção. E as vezes eu me sinto lá, na tal bolha dos que pensam que o mundo deveria ser uma coisa que não é e não entendem que a coisa vai mal. Fico sem entender porque estas meninas aqui se arriscam tanto para ir trabalhar quatorze horas e morar num quarticulo com outras sei-lá-mais-quantas, fugir da migra todo dia e ligar para casa no domingo.
As cenas da mina boliviana estão neste videozinho. E é muito louco ver como, assim como este texto vai e vem, assim como as mulheres saem para bem longe achar algo que não conseguiam encontrar perto, as coisas na vida se repetem até que a gente entenda e faça. (Gravamos na Bolivia 50 horas de material para fazer um doc sobre a folha de coca. A vida real nos engoliu e paramos no pré roteiro do doc. Hoje as fitas descansam com Jacques em Buenos Aires. Saímos para a Bolívia sem entender exatamente o que queríamos - começávamos esta vida - mas depois achamos que a idéia era falar da coca como reflexo desumano da globalização e do capitalismo. Por interesses bem outros - ali as nascentes de água amazônicas - os cocaleiros se viam criminalizados e perseguidos.) Hoje cá estou perseguindo as migrantes, porque creio que através delas posso falar do reflexo cruel da globalização e do capitalismo. Porque ao serem criminalizadas ficam sem assistência: não tem com quem reclamar dos maus salários, da exploração, da violência. Os discursos governistas falam de segurança nacional (assim como na Bolivia antes de Evo se falava de segurança e guerra contra o narcotráfico) para encobrir o fato de que é muito bom ter mão de obra baratíssima e nenhum direito trabalhista (e lá ter bases militares em pontos estratégicos). O jogo é o mesmo.
Esta viagem centro americana comecei entendendo o trilho - claro que a cada passo vejo algo mais e uma ou outra coisa que achava parecem besteira… E nos dias de calor intenso, em cidades feias que nos passam a perna por sermos gringas (este é o próximo post) é bem bom entender “que que é que eu to fazendo aqui…” Bem, tudo isso só para responder, quase uma semana depois: “Sam, acho que não somos loucas. Juro que acho que não….”

21 de Julho de 2008
Vc vai rir, mas me veio a mente a frase do Che: hei de endurecer sem perder a ternura.
Meu, tem que segurar a onda de ir tendo cada vez mais consciência (de si e dos fatos) e continuar na luta. Ufa…
22 de Julho de 2008
Então, q q vc tá fazendo ae?
Vivendo…
25 de Julho de 2008
clau: senti a somaterapia no ar… rere… mas é isso mesmo…
chico fofo! vivendo…