Elizabeth encontra Elizabeth
Cidade do México. 21 de agosto.

Acabava de falar o bambambam da migração latinoamericana. Metade do auditório levantou para tentar algum contato. Eu fazia parte desta metade. Fui ficando atrás, aproveitando para escutar as perguntas e pedidos em quase off. Faltava uma e era eu. Ela tinha um casaco vermelho em cima de um vestido vermelho em cima da calça jeans. Os olhos brilharam e o punho se manteve firme: “eu estou criando um movimento de mulheres migrantes”. Não era bem isso, mas chamou minha atenção. A guerreira então sentou a uma cadeira de mim, do lado oposto do alemão do post que virá. Cochichando disse que queria falar com ela um pouco, depois. Sentamos juntas para o almoço do tal seminário. Uma de frente para outra quase num espelho. Ela 27. Eu 28. Ela Elizabeth. Eu Eliza. Ela rodando um doc sobre emigradas. Eu propondo um doc sobre emigradas. Ela com aquela coisa de acreditar num sonho, num desejo. De olhar no fundo dos olhos dele e falar: “sairás do plano das idéias, oh idéia”. Eu também, e cada vez mais, amém. Ela migrou seis meses para os EUA. Só no dia seguinte, porque quando o encontro é assim e é possível há de se almoçar de novo, me contou dos perhaps do caminho. Ela migrou por crises inadministráveis no momento. Demissão, fim de namoro, família se desintegrando. Foi para poder sair do redemoinho da vida. Da vida que lhe escapou das mãos. Foi por isso que se pôs em movimento. Na solidão, nos passos, foi se reconstruindo. No norte trabalhou como nunca havia trabalhado. De garçonete de um lado para garçonete no outro. Um dia chegou no trabalho e o chefe disse: “assina o ponto e vamos para a minha casa”. Ela disse “não”. Insistiu no “não”. E não foi. Das cantadas começou a ouvir desaforos: “deixa a sua irmã na minha jaccuzi e está tudo resolvido”. Foi nos chefes do chefe (era uma franquia) e acusou o abusador. Ele inventou mentiras e ela sentiu medo. Um dia chegou no trabalho e ele, a esposa, um suposto advogado e um suposto da migração a aguardavam: “fala publicamente que mentiu e tudo seguirá bem. caso contrário te deportamos”. Elizabeth foi ao banheiro, do celular da amiga ligou para a mãe dela, da amiga. Se acalmou, um pouco, o quanto podia. Saiu e disse que não sairia dali: “então vamos te deportar”, “eu tenho visto”, “mas não pode trabalhar”, “quem disse que eu estou trabalhando? tem algum papel assinado?”. Não tinham. Venceu o cinismo divertido. Porque um patrão que contrata ilegais para pagar menos chamar a deportação é piada de mau gosto. Mas as amigas de Elizabeth que não tinham o visto estampado de turista, ou a coragem rasgada da atriz não haviam chegado tão longe. Haviam ido a casa do patrão. Uma a uma foram se confessando, lamentando, desabafando. Sem detalhes porque a culpa, o asco ou a vergonha não permitiam. O processo da mexicana continua rodando nos EUA. “Soube que outras duas meninas que entraram lá agora, que foram cantadas já denunciaram ele também, aproveitando o processo”. Mas depois de tudo Elizabeth se encontrou com Elizabeth. Não precisava mais estar lá para estar consigo. Voltou.
Hoje, dona de si, dos passos e sorrisos toca seus projetos intensos. Co-dirige uma obra com um espanhol, prepara seu doc de emigradas, das amigas que continuam lá por cima. Um dia veremos a vida que ela editou projetada em algum festival. Prometemos ir para Tijuana juntas. Pensamos em juntar forças. Por hora brindaremos – me voy que és hora do terceiro encontro!
Ps: Elizabeth é a segunda personagem do próximo Saia por Aí: dia 03/09 na GNT!


27 de Agosto de 2008
quantos e belos encontros.
brinda a vida
brinca a vida
queria estar aí um tiquitito assim ó!
28 de Agosto de 2008
Oi Eliza,
aqui é a Rosane, jornalisa, tua vizinha de blog na marieclaire(sou do Miojo)
sempre te leio e te admiro, mas nunca comentei
hoje, numa noite de pensamentos confusos, entre encruzilhadas da vida e algum desapontamento, depois de um daqueles dias em que (quase) tudo saiu errado, a historia de elizabeth me inspirou, me fez lembrar das coisas que valem a pena
parabéns pelo teu trabalho, beijos
Rosane
28 de Agosto de 2008
Que belo(a) encontro amiga :)! É sempre bom trocar idéias com quem caminha no mesmo sentido… Em Lisboa fiz uma amiga dessas, e ela me faz muita falta…
Aproveite!!!!
Bjs c amor, sempre!
28 de Agosto de 2008
lágrimas escorregam do rosto…
bjs
28 de Agosto de 2008
Vc tem uma admirável olho clínico para boas histórias, sempre.beijos.
29 de Agosto de 2008
* vem grasi, vem…
* rosane, já te contei no miojo… acabava de voltar do terceiro encontro com elizabeth quando li seu comentário. foi tão forte. bem, um dia trocamos umas xicrinhas de açucar e te conto! brigada!
* hosinha… que bom te ver… quem é a amiga de lisboa? eu escutei dela?
* alice linda!
* obrigada vivien! adoro saber que vc continua passeando por aqui! eu sou um pouco caótica com minhas visitas a blogs, mas sempre que rola te visito tb… e depois sempre fico pensando, pensando…