30 de Junho de 2008

a menina que sorri com o corpo inteiro e a mulher de olhos azuis bem verdes

claudia-olho.jpg

Conheci Claudia na estante de uma livraria na Costa Rica. “De fronteras” estava ali perdidinho na literatura latino americana e minhas mãos alcançaram sem pensar. Quando descobri que a autora era salvadorenha e quase da minha idade não tive dúvidas. Peguei e deixei na fila dos livretos a serem lidos. Um dia por distração furei a fila só para ler uma frasesinha. Quando vi, devorei as fronteiras pelas refeições e acabei antes do que estava lendo quando entrei na tal livraria.
Tive certeza que ela deveria ser a personagem de El Salvador para a série de cultura que faço para a TAL (que estou louca que suba na net logo…). Trocamos uns tantos emails e marcamos às onze na porta da Universisade Nacional de San Salvador: “eu vou estar com um vestido vermelho com…” “Você vai ser a única brasileira lá, não se preocupe!” me interrompeu. Desliguei achando um tanto de exagero dela pensar que vai me reconhecer assim só e passei os olhinhos no espelho: “não é que tava na cara que eu era brasileira?”
Saí patriota e mal cruzei o portão gigante de entrada e uma mão bem lá de longe me acenou. Sorri. “É que vocês sorriem com o corpo inteiro” se explicou Cláudia. Amei a definição.

A entrevista se estendeu para além do protocolo. Às vezes achava um pouco que ela era eu. Ou não. O livro de número três de Cláudia Hernandez, “Olvida Uno” (algo como “a gente esquece”, “alguém se esquece”) é a história de migrantes nos Estados Unidos. Ela junta as personagens reais com animais surreais mas completamente humanos. “Para entender a gente tem que se misturar. Fiquei lá dois anos e trabalhei e vivi onde eles estavam. Porque se a gente entrevista as respostas vem muito articuladas e pensadas. Para entender o que é mesmo tem que estar ali, vendo a vida, vivendo.” Concordei inteira.
Falei da vontade de cruzar com coiotes, que também planejo ficar nos EUA trabalhando em algo que não trabalharia (na cozinha e em alguma fábrica), falei dos medos de viajar sozinha e de tentar entrar nestes mundos todos: “o medo não está em nenhum lugar fora, está dentro” concluiu sabiamente com seus olhos azuis bem verdes.

claudia.jpg




comentários dos leitores (6)

  1. grasi

    30 de Junho de 2008

    lindíssima a moça que escreve… a moça que lê… a moça que balança para dar um ‘ei’.

  2.  
  3. André

    30 de Junho de 2008

    eita menina porreta!
    coisa boa poder ler seus textos assim, mesmo você estando longe!
    esta sua crônica-poesia-pensamento-fotografia
    é sempre de alta qualidade! fiquei um tempo sem ler, mas já voltei! bom demais!

  4.  
  5. Alice

    1 de Julho de 2008

    Boas sintonias, boas leituras, de livros e de linguagens corporais. Coiote não, vê lá…

  6.  
  7. Vivien

    1 de Julho de 2008

    Bacana a definição que ela deu, mais do que dizer que somos calorosos ou outra coisa, dizer que nos comunicamos com o corpo. Bem colocado, gostei.

  8.  
  9. Eliza

    2 de Julho de 2008

    *Grasi fofa!
    *Moncaio, que bom receber sua ilustre visita. Saudade de nossos longos papos sobre qualquer assunto que ia mudando a cada nova frase sem que nos importássemos. Ah moncouer…
    *Sim senhora dona Alice, nada de coiote. Volto sã e salva! Não sei quando, mas sei como!
    * É boa né Vivien? Faz sentido em algum ponto. Sei lá, me senti enquadrada ao menos - e com orgulho de ter sido enquadrada…

  10.  
  11. América sem fronteiras » Blog Archive » artista de onde?

    13 de Janeiro de 2009

    […] página da Televisión América Latina dois dos quatorze mini docs estão online. Aqui Malpaís e Claudia Hernandez - que passearam pelo blog há tempos em textinhos apaixonados (siga os links!) - chegaram com voz e […]

  12.  
envie seu comentário



Nome       

E-mail       

Site          

Comentário