a amiga que não conhece o amigo
Tem coisa que é mistério, é sorte. Acho que quando se viaja se potencializam os encontros, a abertura para os impossíveis que nos cercam. Lembro sempre de quando eu fiz minha viagem de auto-conhecimento-consciente - me separava, mudava de país e precisava de ar para refazer os sonhos que habitariam o vazio deixado. Andava pelas ruas amazônicas com a sensação de que “se paro no farol, se tomo um sorvete ou se viro para a direita e não para a esquerda toda a minha vida será outra”.
Porque quando se viaja se entende que a dica de um vira um desdobramento que implica em conhecer esta e não aquela pessoa. Em ir para aqui e não para lá. De viver isto e não aquilo. E por fim, de ser esta-eu e não aquela outra-eu-que-nem-sei-quem-é. Hoje já não fico a cada passo pensando assim, tão racionalmente neste ligeiro-paranóico, mas tento desnublar a anteninha que capta o bom vento e me leva ao encontro do eu-que-quero-ser. E foi assim que um dos bons milagres desta viagem começou.
Ainda era El Salvador. Depois de uma entrevista a entrevistada me diz: “viu que está tendo o festival de cinema de migração?”. Eu que só havia visto que havia acabado de terminar o tal festival descobri na programação que ela tirou do lixo, literalmente, porque já era dia 27, que dois dias depois haveria a retrospectiva do festival encerrado, com dez horas seguidas da produção de quem havia feito o que eu fazia. Um dos docs me chamou especialmente a atenção - já escrevi dele por aqui, Asalto al Sueño - e então enviei um email para o diretor Uli: metade elogios, metade pergunta.
Era junho. 30 de junho. Ele respondeu simpático, explicou o projeto. Daí para frente me colocou em contato com as pessoas certas, me preveniu para não falar com as erradas. Na Cidade da Guatemala fiquei na casa que ele fica quando por lá e daí nasceu a piada: “esta é a amiga do Uli que não conhece o Uli”. Alba Lucía, a tal amiga do Uli que conhece o Uli me bem recebeu por uns dez dias e me colocou em contato com seu mundo: a experiência na Guatemala foi totalmente outra.
Me senti em casa, com direito a preparar jantar para um grupo de uns sete amigos dela, tomar o melhor vinho que já provei, comer paella na casa de outro e sei lá mais o quê. E de lá recebi um email do amigo que não conhecia dizendo que ele estaria na Cidade do México para palestrar num seminário sobre migração.
Mudei um pouco meu cronograma e lá estava, dia 21 de agosto, nove da manhã, avenida reforma – a paulista do df – conhecendo o amigo internético. Antes de ir fui atacada por aquele nervosismo adolescente de vergonha/timidez, o-que-que-eu-falo? Daqueles que faz ficar pensando em que roupa colocar; que depois de ver de longe o amigo desconhecido disfarça, adiando um pouco mais o encontro. Quando nos sorrimos vi que ele sentia o mesmo. Relaxei. No fim das contas nos encontramos nos quatro dias dele por aqui – os alemães quando falam “até amanhã” significa que amanhã nos vemos, mas isto é o próximo post. Conheci alguns de seus contatos profissionais e amigos. Acabei entrando para a “colonia alemã” mexicana – o tal post próximo – e outra vez ganhei de presente uma experiência linda e única de cidade. Depois de tantos cafés e histórias ele se foi para Berlim. Eu continuei com seus amigos. Saí com Elvira, outra alemã, para uma salsa – ela é a alemã mais cubana do mundo, super-salseira-cheia-de-ritmo - noutro dia para uns tacos; hoje me mudo para a casa do amigo da amiga do amigo que agora conheço. E sei que ainda virão desdobramentos desta sorte, deste tipo milagre que são os encontros-encontrados da vida!
Valeu Uli! Sorte nos próximos docs e nos caminhos-encontros de sua vida!
ps: tento conseguir uma foto de elvira e uli e eu numa festa na casa de uma chilena. se conseguir, subo aqui!



29 de Agosto de 2008
Fluem os encontros e o texto acompanha o ritmo! Pura alegria!
Estás mm no território da taça do brinde da vida!Brinca, brinda, dança que estás em boas companias!
30 de Agosto de 2008
Então, será mesmo que os alemães correspondem à fama de “frios” que têm??? Também fiz uma amiga alemã, a Eva, que era professora de salsa em Frankfurt :)… Coincidências a parte, ela era um doce e não tinha nada da tal frieza´”típica” alemã! Deu saudades da “alemãzinha mais brasileira” que conheci!
Que delícia esses encontros que a vida nos proporciona…
Qdo mesmo que NOS reencontraremos amiga amada???????