31 de Dezembro de 2008
nove horas de vôo e todos os nove meses de deslocamento voltaram. irmã, cunhado e pai sorrindo no saguão. parecia que nem fazia tanto tempo. não sei se pelo skype que toda semana nos colocava frente a frente; não sei se simplesmente porque quando se tem vínculos muito fortes pouco se nota o tanto. São Paulo branca, garoa, grande; as ruas com os nomes que já conhecia, a compreensão de toda e cada palavra inteira - relaxando. voltar para casa - mesmo que já não tão casa, mesmo que não querendo assim tanto - é de um conforto sem tamanho. á noite o samba chorado, o quadril rebolado, a cerveja de garrafa brindada, o garçon falando português e chamando pelo nome. como se tudo tivesse sido um sonho lindo e enorme: acordei e pronto.

23 de Dezembro de 2008

Tinha ido fazia tempo. Nem tanto no calendário mas uma vida inteira. Saiu há nove meses. Largou o Brasil e subiu no mapa. Escalou vulcões, mergulhou no atlântico, no pacífico, pegou trem, ônibus, dançou jazz. Conversou com mulheres que como ela precisavam ir. Ir. Cada semana colocava tudo de volta na mochila, reclamava da coluna e vestia sua casa sorridente: “o que vem agora?” Mais ônibus, mais prosa, mais. A cada novo outro se via-a-si. Se entendia mais. Escutava. E foi tanto se ouvindo que foi virando-se ela mesma. E de tanto ir andando entendeu que podia parar.
Parou. Pariu-se.
Conheceu gente que realmente amou; amiga de quem se sentia amiga. Com que se fazia entender e até entendia mesmo faltando tanta palavra em seu tosco vocabulário inglês. E a cada dia na vida de outono de inverno de nova iorque ia entendendo com seu corpo inteiro o que seus ouvidos escutaram na viagem toda. Entendeu cada andarilha: Georgina, Dolores, Carmen, Val, Maria, Sandra, Alba Lucia, Alicia. Foi entendendo tanto, tão forte, com o corpo todo que sua mão paralisou. Não podia escrever de outras mas ainda não entendia o que já sabia. Não com palavras. Deixou o blog e se-agarrou-se. Deixou que as sensações fossem inteiras, plum! Maior que o verbo. E quando já tinha sanduiche preferido, cadeira cativa no café vizinho e a garçonete já até chamava ela eliza de ilaiza viu que tinha que ir para trás, para baixo. Quatro dias e o avião ia-vai para a cidade que já sabia nome, população, melhor cinema; para o país que dominava a língua perfeitamente e sabia o nome de todas as capitais. Já até tinha conhecido quase todas. E aí das coisas que aprendeu lembrou que quando se anda tanto, se vai tanto a volta é algo que não existe. Já não se tem casa lá. Já não se é só de lá. Se tem uma saudade – eterna, intransponível – e o aqui. O resto é mentira.

16 de Dezembro de 2008

Valeu a todos, a cada um! com muita alegria agradeço as estrelinhas e a torcida! A varinha mágica de Georgina ganhou o prêmio do público no concurso Migr@tion da Radio Canada! Nesta semana posto sobre a experiência Montreal menos 16 graus (incrível!). Por hora corro… e brindo! Tim tim!

12 de Dezembro de 2008

Sarah é destas moças sorridentes animadas que no fim da festa quando tudo indica que a noite já foi mesmo diz “só mais cinco minutinhos?”. É americana mas fala um espanhol nada gringo e gosta de um remelexo de uma forma bem latina. Ignora classificações de dia da semana e sempre aceita uma cervejinha ali, uma musiquinha lá, segunda, terça, quarta, doesn’t matter. Mas Sarah cansou de tanto ter que gastar de tempo, de cerveja, de olho buscando um gatinho do seu número na noite, nas noites, tantas noites. Aderiu a moda, nova moda, nem tão nova. Escreveu seu perfil, colou as fotos e marcou quatro dates na mesma semana. Na semana anterior cortou o cabelo, pintou, comprou roupa nova, ensaiou a chegada. Imagino que ensaiou, eu teria. Primeiro achei estranho e logo vi que na cidade maçã encontrar apê, comprar qualquer coisa ou achar namorado pela net é cotidiano. O primeiro encontro de Sarah foi ótimo, o cara era bacana, rolou sintonia. Ela saiu do jantar feliz para comemorar depois comigo e outras gatinhas ainda menos virtuais que gastamos dinheiro e horas presenciais na procura do que nunca se encontra com tantas cervejas. Brindamos o primeiro date. No segundo Sarah que é destas que curte direitos humanos e trabalha num programa de latinos quase não engoliu quando o pretendente disse que os hispanos deviam voltar para a roça de onde vieram. Ela não discutiu porque ficou paralisada mas riscou o tal da lista de talvez quem sabe outro encontro. Na noite do mesmo dia foi encontrar o pretendente de número três: “goooorgeous” repetia empolgadíssima. Mas ela que adorou ele ficou arrasada com a sensação de que ele gostou mais da garçonete que dela. Não entendeu os sentimentos do bonitão e ligou precisando de consolo. Lá fomos nós, a equipe de resgate com chopps salvar a pequena loira. Fomos num bilhar e entre tacadas e cervejas que os garçons nos presenteavam – foi uma bela noite… - Sarah foi contando detalhes. Aí meu lado brasileiro não conseguiu entender. Nada. Sarah se despediu do bonitão com um aperto de mão. Gritei em pânico: “mas isto é normal?” “O quê?” “Aperto de mão?” E não é que era? Voltei em perspectiva a vida inteira tentando encontrar um só momento em que eu tenha me despedido do gatinho que gostei com um toque de mãos: “nice to meet you”. Impossível… Achei abraços apertados, beijo no canto da boca, bicotinha e até beijo no pescoço como quem finge que não entendeu que errou a mira. E ali fiquei no ar, tentando juntar os dois lados. O do moderno que topa conhecer gente na net com toda a sinceridade de escrever “oi este é meu nome inteiro eu faço isto e gosto daquilo e quero um namorado/gatinho para sexo/o que for” que se contrapõe, se soma, se sei lá o quê a este meio puritanismo antigo dos corpos distantes, não contato, tudo preso, aperto de mão. Uhh, haja cerveja para processar….
Ps: no dia seguinte o bonitão ligou. Suspeito que ele tenha gostado mais de Sarah que da garçonete na verdade …

04 de Dezembro de 2008

Andava tampada do frio. Era frio. A cidade inteira. O peito inteiro. Quase a alma. Mas ainda não. Com passo acelerado atropleava as folhas do outono. Tudo caía. Tudo pisava. Andava rápido tentando esquecer o que deixou para trás. O amor que devia ter sido, mas não. (por que não?) O país que devia ser pátria, já não. (já…) A família que devia estar perto, tão (tão) longe. Por. Quê? Por. Quê? Por. Quê? Faziam os passos. um. a. um. a. Quase-ao-mesmo-tempo. Achava que com sua nova bota de 30 dólares, verde-verde, comprada com o tip do restaurante poderia fugir de suas duas décadas de azar. Pode. Pode. Pode. Pode. Maria ia e a música no fone na língua que um dia foi sua lembrava: vai, porque depois de tanto ir voltar? Pra onde? Onde. Onde. Onde. Onde. Continuava a sina de quem já não é nem de lá nem daqui. Lá. Qui. Lá. Qui.

01 de Dezembro de 2008
Nostalgia: melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal (…) saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado (Dicionário Houaiss)
Faz tempo que Diego saiu. Seu coração latino/argentino se apaixonou por uma gringa e voou para os States. Na nova casa, casou, separou e todo novo sábado se reapaixona por alguma chica de quadril vibrante na noite de Nova Iorque. Num sábado foi pelo meu ziriguidum que seu corazón latió. Claro que Diego se chama Diogo, Pablo, Alejandro ou qualquer outro nome que não Diego mas não importa. O que importa é o que segue… Já eram muitas long necks de sete dólares – ui… - quando nossos olhos de baixo da América se cruzaram. Nostálgica de bem entender palavra por palavra, a frase inteira e até piada que estava gastei todo o meu castellano, enquanto ele gastava todo o português. A saudade era tanta que argentino arranhando português já era de uma familiaridade carinhosa ali naquela terra de puritanos. No meio do caminho todas as referências se encontravam: doce de leite, morro de são paulo, malbec e chorinho. Um forró bem arrastado se creyendo tango e foi: golaço! Mas entre as línguas, a embriaguez fez com que Diego confessasse que tinha encontro com outra Senhora Nostalgia que não eu: “amanhã é dia de pelada” falou assim mesmo em português com acento hermano. Na domingueira pegou a chuteira, camiseta número 10 e foi.
Já tinha dez anos de green card mas a saudade da terra, do porto, do Plata levavam o hermano todo o domingo para o campo. Com a bola no pé Diego corria em Mendoza, driblava os 8.512 quilômetros da terra natal, gritava “che, boludo”, recuerdava tempos outros, bolas outras. A vida de quem sai de casa é algo assim. Sempre. Basta uma caminhada nos parques gringos e as pelotas nos pés estarão acompanhadas por xingamentos latinos, num desejo de ali não ser ali por 90 minutos que seja. Saindo dos parques os mercadinhos do Brooklyn ou do Queens e suas prateleiras recheadas de produtos em espanhol, indiano, mandarim, coreano encherão os estômagos dos nostálgicos com produtos da terrinha: curry, tortilla, coxinha. Para quem gosta de números um estudo da Organización Diálogo Interamericano aponta que 49% dos mexicanos aqui de cima preferem comprar produtos mexicanos que norte-americanos. A nostalgia, esta saudade da terra que move a economia dos países latino, os pés de Diego e meus quadris no chorar de qualquer cuíca às vezes tem soluções menos simplórias que estes dribles.
Antes de virar eu também este ser saudoso que estou cruzei com mulheres centro-americanas (viajo dês de março, dês de o Panamá) em que a saudade não se resolvia com chilli, driblês ou cantadas. Cruzei mulheres em que a terra deixada e desejada era aquela nascida em seus ventres, saída das entranhas. E para garantirem o adubo de seus pequenos terrenos migravam com esperança de melhores empregos e salários. Nem sempre encontravam, nem sempre se orgulhavam de suas decisões. A impotência de quem passa e escuta e lamenta e segue me motivaram a editar um videozinho.
E todas as embaixadinhas deste texto foram só para deixar a bola assim, na cara do gol: fiz um curta sobre Georgina, uma mulher que queria ter uma varinha mágica e se transportar de volta para o dia em que saiu de seu país, para o ponto de ônibus em que seu filho gritava no te vaya! A nostalgia de Georgina chorava e eu sem varinha tentei em vídeo deixá-la assim, mais perto de sua pátria. O vídeo está na net, numa competição até quarta, dia 03, logo mais. Convido a todos da arquibancada para invadirem o campo, verem Georgina, Israel e gritarem com todo o pulmão umas estrelinhas para nós: Me ajudam no chute final?
O jogo é aqui, só clicar!
Qual é: Georgina’s Magic Wand
*texto feito para o blog Futepoca.
