Matéria barra pesada sobre tráfico de mulheres, aquela que fico adiando cada dia para não ter que ver + uma gripe chatiiinha, a primeira dos quase seis meses de viagem… como boa gripe trouxe no pacote uma moleza preguiçosa, um dengo dengoso de péra só um pouquinho + o dead line de seis matérias (ai ui) antes de partir outra vez mais para o norte + um furacão que passou por bem lá mais deixou a cidade num molhado daqueles que lembra chocolate quente com cobertor.
Resultado: o américa sem fronteiras ficou tão paradinho, coitado… sem novidade, sem vídeos, sem fotos nem vida. Mas tem hora para tudo e cada coisa. Assim baixo do blog para tomar um café, tirar um cochilo, recarregar as baterias, bater uns papos e uns cliques. Porque como boa migrante que também sou o pé na estrada é bom (bem bom) mas cansa (uh, como cansa…). Hora de repouso. Volto com novas e boas histórias, novo país, novas fronteiras!
Dia 30 de setembro já lá em cima - Nova Iorque! - nos encontramos!
Elizabeth, Francia e o cunhado. Sentados na frente da linha do trem que ia para cima. Perto do DF, Cidade do México, numa lecheria, um encontro de linhas. As bocas rachadas do frio que faz em cima dos vagões. As olheiras fundas das incertezas, dos medos, da impossibilidade de dormir e algo perder. Já haviam perdido as roupas na mala deixada por alguns minutos e depois já não mais. Já haviam jogado as pedras na gangue que subiu no vagão: “éramos uns sessenta, eles já haviam assaltado do outro lado, mas aí todo mundo jogou pedra e eles não nos roubaram”. Os três, por sorte das grandes, desde Honduras não haviam sofrido nada de grave, contaram. Elizabeth caiu do trem, rapou o tênis e agora tinha medo, muito medo de subir nos vagões. Olhava o trem como um abismo. Algo que pode ou não pode ser.
Sem roubo no caminho mas sem nenhum centavo mais, nadinha, seguiam. Só guardavam uma fome e uma sede de quem não tem nada para comer, nada para tomar. Guardavam o sonho de outra vida também. Bem guardado. Não tinham cartão telefônico para ligar e pedir um troquinho para a família - os migrantes vão com pouca grana e de ponto a ponto seus familiares depositam num western union e eles pedem para algum local sacar o dinheiro. Dei um cartão telefônico que tinha. Dei também a manteiga de cacau. Cada boca rachada contou que deixou quatro bocas. Quatro filhos de diferentes pais, com as mães/avós. Francia de 33 deixou um de 16, 11, 8 e 6. Algo assim. “Quero que meus filhos estudem. Eles estão estudando…” me disse a mulher que só estudou a primária, um aninho. O trem passou e levou o sonho para o norte. “Mas volto em quatro anos, para comprar uma casinha, é isso que quero” sonhou subindo e indo. E foi.
A Fouzia e a Elizabeth antes de serem personagens dos posts aqui postados falaram para o quadro que faço para o Saia Justa. Antes disto elas já tinham andado muito por aí a procurar, sorrir para não chorar e aquilo tudo. Subo aqui o clipe da matéria que está no ar na GNT - estreiou quarta e tem reprise na quinta, às 4h, 10h e 14h, no sábado, às 23h e às 5h, e no domingo, às 10h30.
E você, já teve que ir longe para se encontrar?
ps: a foto que aparece no fundo da passagem foi do dia que eu literalmente quebrei o nariz…
Chamava não, chama. “O nome mais lindo do mundo”. Concordei sorrindo já saindo do taxi, pegando o troco dos, sei lá, dezesseis pesos. Ele mal havia começado o dia de quatorze horas de condução. Quatorze horas conduzindo gente de todas as cores pela linda e caótica Cidade do México. Quatorze horas para tirar duzentos pesos, me disse. Quatorze horas para vinte dólares. “Por isso vou voltar. Já morei em Miami Atlanta Nova Iorque. Vou voltar para Miami, o clima é melhor e tem mais trabalho”. Isto talvez tenha dito um guatemalteco que conheci algumas horas depois. Mas não importa. A essência é a mesma. “Lá pinto carros. Tiro por mês uns $ 2.400. E ganho comida e quarto. Sem gastos.” Isto foi Ricardo mesmo quem disse, certamente. “E trabalha quanto?” “Das sete as sete. E se trabalho mais ganho hora extra.” Parecia uma boa troca… “E a polícia lá?” “A polícia não tem problema. A migra é que é. Uma vez a polícia me pegou. E agora eles já falam espanhol. Antes não falavam não, agora falam. Aí eu virei para ele e expliquei que tava lá trabalhando, a verdade. Ele entendeu. No final virei para ele e disse: e seu carro tá precisando de uma pintura também”. Ri um pouco. “Mas agora num tá mais duro cruzar?” “Xi, tem problema não. Eles fizeram os muros, a gente fez os túneis. Para o mexicano nada é impossível”, me gargalha embaixo do viaduto.
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
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Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos