31 de Julho de 2008

Giorgina vai ao Canadá

Ontem fiquei sabendo que o vídeo da Giorgina e do Israel (lembra deles?) que editei na correria para um concurso terá sua primeira exibição pública em Quebec: se alguém estiver por lá no dia 18 de setembro me conte que eu passo a programação. Não resisti e posto um pedacito dele aqui em primeiríssima mão!


29 de Julho de 2008

.até aquele dia.

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26 de Julho de 2008

Medo no Saia Justa…

Lembra aquele textinho que escrevi sobre medo… pois bem, para afastá-lo de mim um pouquito propus este vídeo para o Saia Justa.

Para quem não viu, lá vai!


24 de Julho de 2008

matilde

(continuação gigante do prólogo)

(Subo num triciclo com a ajuda da mulher que gosto. Tem que te cobrar 5. ele me cobra cinco. É um homem com cara de bom homem. Chega na casa de la mujer - apoyo y promoción para las mujeres en situación de prostituición y migración. Carmen me recebe. Fala pouco. Vem uma niña tão linda, com cara de indiazinha de hollywood. Carmen chama matilde. Só saberia seu nome bem depois. Só sabia que estava em situação de prostituição e que agora estava ali com os filhos. Ela vem com um no colo. Logo vem outra pequena. Matilde vai falando com um olhar sério. Parecia uma anestesia)

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eu to aqui porque lá em La Maquina não tem trabalho, então minha irmã disse para vir que tinha trabalho para mim num bar. Mas eu não dei certo lá, não consegui fazer bem não. Para minha irmã parece que é fácil, ela é boa. Mas ela bebe muito e eu não gosto de vê-la assim. Ela fala para eu beber mas tenho os meus filhos. Se fico bêbada este aqui vai chorar fazer o que for e eu não vou escutar. Não bebo. Pedi ajuda para ela porque queria voltar para casa, 50 só para ônibus mesmo, só para eu voltar. Mas ela não quis me dar. E ela disse que queria me ajudar. Se quisesse ia me ajudar agora. Porque eu não me adaptei. As crianças de dia ficavam na casa da cunhada da minha irmã. De noite iam para lá. (mas quanto vc ganhava?) dependia de quanto fizesse. Era 50 por cada. 10 ia para a casa. Devia ser 60 e 10 para casa, e assim eu ficava com 50. mas ninguém paga. Então é 50 e eu ficava com quarenta (quarenta é dez reais). E foi neste momento que eu conheci as irmãs e elas me convidaram para vir aqui. já tem um mês que estou aqui, elas me ajudam, me tratam bem. To bem.(mas este foi o final da fala de matilde. isto foi o que me contou quando perguntei desde quando estava ali. Antes ela começou a falar sem que eu perguntasse. Numa voz limpa, educada. Nela eu confiava. Tinha cara de boa gente, sincera. Gente sincera que deu azar desde muito tempo.) quando eu estava gravida deste pensei em dá-lo. A mulher então me levou para a casa dela, me dava comida. Mas depois eu fui me arrependendo. As pesoas diziam que era para vender. Que vendiam para matar. Aí a mãe dela (da mulher que queria o bebê) me disse que faziam coisas ruins. Mas elas já não me deixavam sair. Mas eu fugi. E tive este aqui (fernando está no seu colo fechando os olhos e se deliciando com uma mamadeira. Depois bem depois entederia como foi gerado o pequeno. Depois conto). Mas a outra eu dei. Eu estava na capital. Tava díficil a vida. então a inspetora me ofereceu de cuidar da menina. Que a vida ia ser melhor. Eu assinei os papéis. Depois me arrependi e tentei pegar a menina de volta. Mas aí no juiz ela me disse que eu batia nela, que tratava mal. Que eu já tinha assinado. (que idade ela tinha?) tinha cinco. Hoje já tem doze. Mas quando foi adotada já tava cumprindo sete. (mas calma, onde que vc assinou os papéis?) no juiz, depois na embaixada aquela, dos estados unidos, depois num outro lugar (direitos humanos? Pergunta carmen na cadeira ao lado). Isso, me fizeram um monte de pergunta lá. Mas quando minha filha estava indo ela pediu para me ligar. Disse que estavam bem que os novos pais gostavam muito dela. Que eles enrolavam o cabelo assim (passa a mão entorno da cabeça). E aí ela foi para Israel. (mas não era estados unidos?) pois é, não sei, no fim foi israel. Eles me prometeram que me iam mandar sempre foto dela. Mas é mentira. Nunca mandaram. E quando ela me ligou ela disse agora a gente está se separando mas pode ser que um dia a gente se encontre de novo. Ou que um dia a gente se esqueça uma da outra. Mas eu sou sua mãe, eu nunca vou te esquecer. E hoje eu fico pensando se um dia ainda vou encontrar minha filha. Se ela me esqueceu. falam que ela um dia vai me procurar mas ela está muito longe. e eu fico pensando, será que minha filha está viva? porque depois me falaram que vendem estas crianças para usar os órgãos em pessoas velhas. será que minha filha está viva (matilde continua com sua voz doce mas seus olhos choram. derretem a frieza que a merda da vida lhe deu). agora já não, mas eu sempre sonhei com a minha filha. porque ela era pequena para saber se a gente era boa ou não. será que ainda vou ver minha filha? será que ela está viva? eu fico perguntando se a minha filha está viva? (choro junto um pouco, com quase tudo engolido para continuar prestando atenção) e desculpa, mas é a verdade, a outra filha que eu dei eu não senti isso, foi só com essa. (que outra filha?). a que nasceu e eu dei. (que idade, é mais velha ou mais nova que esta? aponto para melissa de dois anos). é mais velha que esta mas mais nova que a outra. (chega maria fernanda de oito. quantos anos? ela quase não lembra, mas depois lembra). hoje deve ter uns quatro. dei o nome de matilde abigail. me disseram que iam tirar o matilde e deixar o abigail. mas esta dei assim que nasceu então não me apeguei muito, a outra já era grandinha né? mas disseram que depois vendem estas crianças. então eu perguntei para a inspetora se era verdade. ela disse que não, que eles davam para adoção e me mostrou uma pasta cheia de fotos assim. e me prometeram mandar as fotos. quando os pais dela vieram aqui ficaram seis meses com ela e me mandaram uma foto (corte no tempo). quando o pai viu a foto falou que ia brigar para ter a filha de volta. que a gente tinha que brigar. eu disse que eu não podia porque tinha assinado todos os papéis e que se ele queria brigar era bom ir com muito dinheiro para o advogado. mas antes ele não acreditou que era filha dele. quando soube que eu estava grávida foi embora. não quis saber, disse que não era dele. depois que viu a foto que fez isso. (mas calma, este pai é o pai dela que vc disse que está tendo problema – ela tinha dito que tinha problema com o pai da melissa). não é outro. o pai dela a gente ficou junto. um dia fiquei grávida. aí caiu um animal no poço e tinha que ir lá tirar a água e limpar. me falaram para eu não fazer isso que era perigoso. então chamei ele. ele foi todo mal educado e então eu fui sozinha. aí ele brigou muito comigo porque eu perdi o bebê. ficou bravo. depois quando ele soube que eu estava grávida de novo me falou coisas ruins, que não era dele. depois que nasceu foi para os estados unidos. mandava cem dólares a cada dois meses. aí um dia ela ficou doente, muito doente e eu pedi dinheiro. ele falava que ia mandar e nunca mandava. aí um dia disse que se deus queria leva-la então que assim fosse. eu fiquei muito brava, parecia que ele queria que a menina morresse. depois me mandou umas senhas para ir tirar dinheiro mas eu nem fui. porque parecia que ia dar azar. mas nossa relação foi errada desde o começo. acho que é um castigo porque a coisa não era certa. ele tinha duas mulheres. todo mundo dizia que ela ia me dar uma surra mas não. a gente sempre se encontrava. no banco, no supermercado no onibus. a gente já teve até que sentar uma do lado da outra, mas ela nunca disse nada não. (não aguentei e ri um pouco. carmen também. até matilde riu) então não aceitei o dinheiro dele mas tudo que queria era salvar minha filha. então o pai deste (o que mama a mamadeira) me disse para não me preocupar que ele me ajudaria. me deu 400 e eu levei ela no médico. infecção no intestino mas já estava no figado também. voltei e ele pergutou se estava tudo certo. eu disse que na verdade não que ainda faltavam uns remédios ele me deu mais duzentos e disse para eu gastar sem dó. e aí só estivemos duas relações e eu engravidei (calma, vocês transaram para que vc pagasse a dívida perguntou meu lado burguesinha tonta com espanto escondido sem acreditar). isso, mas só duas vezes e eu fiquei grávida. era muito azar eu fiz aquilo para salvar minha filha, não era justo. e então eu dava soco na barriga, me maltratei mesmo. fiz de tudo para perder. mas não. e ele nasceu com problemas psicológicos. dormia e de repente lhe faltava ar ele fazia um barulho e começava a chorar muito. viu? assim. e o médico me disse que era trauma. mas ele ainda é muito pequeno, disse. mas aí ele explicou que era do tempo da gravidez. não sabia que isso existia. e aí ele curou meu filho e disse que eu tinha que pedir desculpas até que ele me desculpasse. e a verdade é que agora eu amo muito ele (e olha para ele com cara de mãe que ama muito ele. Aí foi quando perguntei como ela tinha parado ali e voltamos para o começo do texto).
(fiquei tonta. via aquelas crianças e aquela matilde de traços bonitos, de 33 anos maltratados. lamento. lamento. impotência dela na vida. falta de exemplos. daí surgem outras crianças. quem são? a mãe abandonou aqui. quatro. uma espoleta chega virando estrelas bem viradas. vejo eu criança ali. olha aqui olha aqui olha aqui implora a sapeca dando estrela e virando de ponta cabeça. são quatro as que ficaram. há quatro dias. mamãe disse que voltava. mas já tem quatro dias disse a mais velha depois enquanto comíamos o macarrão e feijão que matilde me convidou a comer na hora em que estava saindo. mas isto já é outra história.)


22 de Julho de 2008

Prólogo (ou cara de gringa gringa é)

(liguei e a irmã me disse que amanhã e domingo estariam todas fora. que não era de prache mas como eu estava de passagem abriria uma exceção para me atender. era sexta feira fim do dia. acabava de cruzar a fronteira méxico guatemala. briguei na saída porque na entrada me informaram que os sei lá 20 dolares que pagaria seriam válidos para depois quando eu voltasse para o méxico. e na saída me pegaram o papel. usei todos os argumentos racionais que juro que faziam sentido. não existia racional só a lei professada por homens armados. Lei mal escrita que deixava o papel informando o contrário do que ela era. quando o inspetor disse para eu abaixar o tom baixei. mas continuei brigando… em tom baixo. quando disse que chamaria o tenente vi que aquilo só ia fazer com que eu me sentisse mais otária e eles mais poderosos. aqui somos nós que mandamos, não você. não era mesmo. saí sem humor. um triciclo me ofereceu de levar. tecun-uman_guatemala_31.JPG

Soube que ele estava cobrando a tarifa gringa estúpida mas aceitei para não começar outra briga. pedi um hotel seguro e ele me levou para uma espelunca de um tipo com uma cara pouco segura. vi o quarto com paredes sujas e cama nojenta. 160. agradeci e falei que não queria. cada passo que dava o preço baixava 10. saí e o cara do triciclo se ofereceu de me levar noutro, num bom. eu disse que até poderia pagar aquilo mas não gostava de como eles tinham colocado o dobro do preço de princípio só porque eu era gringa. saí um pouco irritada. subi. ele me disse que cobraria 30 em vez dos 20, sendo que o preço disso seria 5 (era a tarifa 400% para gringas apressadas que brigam na fronteira). agradeci e disse que iria a pé. falou não tudo bem, te deixo num bom aqui. espelunca de primeira. abriu um quarto com paredes ainda mais sujas – uma marca expressionista de uma mão na parede chamou a atenção, os cinco dedos ali - no fundo do estacionamento. 150. para mim é muito. temos de 75. sobe escadas decrépitas até um mais sujo, nojento. penso em mim escrevendo no meu mac-book-pro-2.2-duo-core-sei-lá-o-que naquele lugar. penso neu saindo dali e deixando meu equipamento no quarto seguro. saio. agradeço. até a porta do hotel o mesmo quarto foi oferecido por quarenta. agradeço e em baixo tom, até simpática fui, digo que era uma pena, se tivessem me falado este preço de início eu ficaria. respiro e lembro que quanto pior me coloco piores coisas atraio. está tudo bem. é só uma cidade de fronteira cheia de pessoas que fazem tráfico de gente e de drogas. em que a corrupção é a lei. já sabia disso antes de sair de casa. então pronto. pôr do sol lindo do lado direito da praça, no fim da rua. busco olhares com amor para pedir uma informação. uma mulher com olhos saltados de quem já viu tudo e pouco importa. não. um homem que não. respiro. ar dentro. ar fora. que bom que boa parte de minha bagagem está na cidade da guatemala. um olhar doce, achei! entro. era algo da paróquia. o homem de bom olhar, miguel, não sabe de hospedagem. mas a moça que ia saindo com sua barriga de nenem sabia. bem, só pode ser o don carlos. chego e havia até recepção com preço por escrito para que tarifa gringa e local sejam a mesma. um menino diz 175. y con descuento? uma mulher me olha e diz 160 é o mínimo. soube que tudo tem que ser barganhado na guatemala. e gosto dela. tem cara de uma mulher de verdade. subo. a porta abre e me revela o quarto mais lindo da viagem. claro que não é. mas agora é. deixo o mac bok pro e todo meu tesouro pessoal – minha produtora e passaporte – no quarto sem nóias. isso é que não tem preço. saio para buscar o contato das irmãs que trabalham com prostituição. o mesmo miguel me dá o número. compro um chip para meu celular. ligo. e é aqui que começa a história. mas o post ficou grande. o prólogo está feito. amanhã vem o que é.)


20 de Julho de 2008

Indas e vindas (e voltas e revoltas)

Fazia muito calor e eu, sensibilizada com Dolores, chegava perto da linha do trem de Arriaga - Chiapas, México: “por que que essas mulheres fazem isso?”, desabafei. Sam respondeu: “não sei quem é louca se são elas ou a gente de estar aqui por opção” e riu seu riso amplo. (Estávamos no México mas nos conhecemos um dia em San Salvador.
Volto.
Um dia cheguei no café e um menino bonito desayunava. Fazia tempo que não via um daqueles e guardei a informação no meu HD. A tarde conversei com a dona do hotel, perguntando molemente que tipo de hóspedes mais dava por ali… ela foi falando quem estava até que chegou em dois que eram de Hollywood e estavam ali fazendo um filme. Bingo! pensei. No café seguinte uma mulher bonita comia sozinha; quando ia pedir meu prato ela me perguntou in english se eu não queria comer o do amigo dela que teve que sair antes do prato chegar; e agora ali estavam seus omeletes quentes e virgens. Ela ia me trazendo o prato mas eu fui mais rápida e sentei do seu lado. Sam, ela é a Sam. E o omelete que eu comia era do menino bonito do outro dia. Ela me contou que era de LA, diretora independente e estava por ali fazendo pesquisa para seu roteiro. Eu que fico carente de gente para hablar a mesma língua, um pouco da mesma cultura, sorri bastante. “Mas do que que é o filme?” “É a história de uma migrante que vai para os Estados Unidos”. Fala sério… Nos pusemos a matracar e decidimos seguir juntas para a fronteira. Ela me fazia companhia no medo e eu lhe traduzia as pessoas. Mudei todo o meu cronograma e ela adiou a volta. E lá fomos juntas.

Mas tudo isso só para chegar no “por que que essas mulheres fazem isso?”) As vezes não entendo o preço que elas pagam para o tal trabalho. E me sinto um pouco como um francês que conheci em 2003. (Não sei o nome dele, sei que era novinho, uns 20 anos. Era sua primeira viagem pelo terceiro mundo. Eu viajava pela primeira vez com uma camera. Eu e Jacques que hoje é correspondente do SBT nos formamos, rascunhamos uma idéia de doc - ampla… - e embarcamos para Bolívia. Entrávamos numa mina em Potosi com o tal francês e ele em choque viu os mineiros que tem espectativa de vida de 35 anos, 20 anos de idade mas cara de senhores; crianças trabalhando; nenhum sonho mais; vidas subterrâneas em todos os sentidos.) Ele nos olhava e perguntava: “mas por que eles estão trabalhando aqui? Por que não trabalham sei lá, num escritório?” Naquele menino vi uma ficha monstruosa caindo: pela primeira vez ele saia da bolha da vida como devia ser e se metia no submundo da falta de opção. E as vezes eu me sinto lá, na tal bolha dos que pensam que o mundo deveria ser uma coisa que não é e não entendem que a coisa vai mal. Fico sem entender porque estas meninas aqui se arriscam tanto para ir trabalhar quatorze horas e morar num quarticulo com outras sei-lá-mais-quantas, fugir da migra todo dia e ligar para casa no domingo.

As cenas da mina boliviana estão neste videozinho. E é muito louco ver como, assim como este texto vai e vem, assim como as mulheres saem para bem longe achar algo que não conseguiam encontrar perto, as coisas na vida se repetem até que a gente entenda e faça. (Gravamos na Bolivia 50 horas de material para fazer um doc sobre a folha de coca. A vida real nos engoliu e paramos no pré roteiro do doc. Hoje as fitas descansam com Jacques em Buenos Aires. Saímos para a Bolívia sem entender exatamente o que queríamos - começávamos esta vida - mas depois achamos que a idéia era falar da coca como reflexo desumano da globalização e do capitalismo. Por interesses bem outros - ali as nascentes de água amazônicas - os cocaleiros se viam criminalizados e perseguidos.) Hoje cá estou perseguindo as migrantes, porque creio que através delas posso falar do reflexo cruel da globalização e do capitalismo. Porque ao serem criminalizadas ficam sem assistência: não tem com quem reclamar dos maus salários, da exploração, da violência. Os discursos governistas falam de segurança nacional (assim como na Bolivia antes de Evo se falava de segurança e guerra contra o narcotráfico) para encobrir o fato de que é muito bom ter mão de obra baratíssima e nenhum direito trabalhista (e lá ter bases militares em pontos estratégicos). O jogo é o mesmo.
Esta viagem centro americana comecei entendendo o trilho - claro que a cada passo vejo algo mais e uma ou outra coisa que achava parecem besteira… E nos dias de calor intenso, em cidades feias que nos passam a perna por sermos gringas (este é o próximo post) é bem bom entender “que que é que eu to fazendo aqui…” Bem, tudo isso só para responder, quase uma semana depois: “Sam, acho que não somos loucas. Juro que acho que não….”


17 de Julho de 2008

Dolores e Bianca Sofia no Chiapas

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Dolores estava no primeiro ano de faculdade quando engravidou: “Fiquei feliz quando soube”. Nos seis, sete meses de prenhice decidiu subir com a barriga e com o namorado para dar a luz no norte, ao lado dos irmãos. Quando contou para a mãe ela chorou. “E você?” “Chorei também…” Depois de três assaltos (no primeiro na frontera sul da Guatemala levaram os 2.500 dólares que tinha) e muitos passos chegou em Arriaga (Chiapas, sul do México) onde a bolsa estourou. Nasceu linda e forte a princesinha Sofia Bianca. Uma briga e o namorado pegou o trem que passa na cidade rumo para cima. Ficaram as duas. Dolores olha com cara de mãe a cria; cuida com um carinho e amor de molhar os olhos de quem vê. No domingo as duas com a ajuda de um costa riquenho que tem papéis mexicanos subirão no mapa. Boa sorte meninas! Boa sorte!

ps: depois de gravar a entrevista com microfone e tudo desmontei e me veio a idéia: “Dolores, quer apresentar Bianca para sua família e eu coloco o vídeo na net?” Dolores sorriu seu sorriso largo e agradeceu… eis o vídeo, simples, mas para que Hondura, México e EUA se encontrem virtualmente.

ps2: mamá y hermanos de Dolores, que chica linda que nació! Mucha alegria para todos! Y que se sintan en casa para usar los comentarios acá para se contactaren con la hermosa Dolores! Mucha salud y suerte para todos!

ps3: quem abriga agora Dolores é o Albergue Bom Pastor de Arriaga; para conhecê-lo/colaborar siga o link.


15 de Julho de 2008

Não sou vítima!

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A namorada de Donar se foi. Com a ajuda da irmã cruzou de Honduras para os States. Dois anos depois combinou com o namorido que se ele chegasse até a fronteira norte do México ela e a irmã pagariam para um coiote cruza-lo. Assim ele saiu com conterrâneos seus, alguns que já haviam feito o caminho. Cruzaram a Guatemala e aguardaram o trem em Tapachula, no Chiapas mexicano há cinco anos. Na mesma cidade encontro Donar depois costurando bolsas para guardar celular no Albergue Bom Jesus. Buscando o tom comecei a perguntar sua história até chegar no ponto em que o trem freiou de repente e Donar, desprevenido, caiu de cima do vagão e assistiu a navalha dos trilhos lhe arrancarem as pernas.”Foi uma hora ali sozinho. Até que um homem de uma cidadezinha passou e me socorreu. Eu lembro da voz dele mas o rosto não sei porque eu já não via nada, só claridade.” Foi para o hospital e o primeiro mês foi de depressão, “a vontade de morrer era maior que a de viver”. Sem auto-piedade foi buscando no silêncio força. “Até que achei força com meu amigo invisível” e olha para o poster de Jesus Cristo na parede da sala de costuras. “Mas como foi na recuperação, você teve algum amigo ou alguém da família junto?”, pergunto depois de medir cada palavra. “Não” e pausa pensando um pouco: “Mas isso é melhor porque alguém da família ia ficar com dó da minha situação, querendo me ajudar de qualquer jeito. Sozinho eu descobri minha força, montei uma nova vida”. A fala de Domar contava desgraças com olhos doces e gargalhadas divertidas: “Não sou vítima” repete convicto.

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14 de Julho de 2008

Vale duzentinhos?

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O marido de Alicia vivia há quatro anos em Houston. Saudoso vendeu o carro e tudo que tinha e pagou 12 mil dólares para um coiote transportar a mulher e a filha de quatro anos para os Estados Unidos. E assim as duas saíram no dia 30 de novembro de 2004 de Juayua, região Ocidental de El Salvador rumando para o norte. Antonio, pai de Alicia passou um mês sem receber notícias delas. “Eu e minha mulher ficamos doentes, nos falaram que elas iriam direto e que do México voariam para os Estados Unidos”.

Um dia um homem com uma voz exigente ligou para Antonio a meia noite. Pediu 800 dólares para que ajudasse a filha doente. Depois de pedir passou o gancho para Alicia: “estou bem pai, estou bem.” Antonio ficou mais tranqüilo e enviou os 800 dólares no dia seguinte. Passados dois dias o coiote ligou novamente e pediu outros seiscentos dólares. Antonio enviou o dinheiro e assim outras quatro vezes: “já estava bem endividado, mas o que podia fazer?” Alicia então escapou do hotel e ligou para o pai. Contou que estavam presas no quarto sem receber comida enquanto o coiote bebia o dia inteiro. Pediu outros mil dólares para que a mãe do coiote cruzasse até os Estados Unidos com elas. Depósito feito chegaram a terra do Tio Sam. Pagaram um tanto mais para chegar em Houston e em 14 de fevereiro de 2005 acabou a saga de Alicia e o sofrimento de seus pais em El Salvador.

A menina de 23 anos então começou a trabalhar numa pizzaria ganhando US$ 6,50 por hora. Hoje já ganha três dólares mais a cada sessenta minutos. No último ano o marido se juntou com uma americana e Alicia se mudou da casa de dois quartos – de 1.200 dólares - para um quarto de 400 na casa-de-não-sei-quem. A filhinha que já fala bem inglês e acaba o primário fica com os vizinhos conterrâneos (da cidade de Sonsonate, ao lado da bela Juayua) enquanto a mãe trabalha. Assim Alicia paga as contas, freqüenta uma igreja evangélica e envia 200 dólares mensais para os pais. “Isto nos ajuda muito”. Antonio dos 510 dólares mensais que ganha como professor recebe 240 líquido. “Com o que ela envia compramos comida”. Quando pergunto como é viver longe da filha, da saudade, Antonio muda o tom de voz, começa a responder e engasga. Se levanta, sai da sala. Sinto vergonha de ter feito aquele senhor se lembrar do pior que sentiu. Ele volta depois de um minuto: “Ficamos doentes com tudo isso, o preço emocional que eu e minha mulher pagamos é muito alto. Então oramos, oramos muito porque é só isso que podemos fazer”. Não podia mais nada perguntar. Agradeci. E lamentei.


11 de Julho de 2008

Asalto al sueno

Em San Salvador tive a sorte de cruzar com um festival de filmes sobre migração no Centro Cultural Espanha. Por dez horas seguidas fiz uma maratona de viagens através de ficções e documentários. Um deles eu realmente gostei: o doc do alemão Uli Stelzner cruza o México com os indocumentados escutando suas histórias e sonhos.

O que achei mais bacana é o respeito com que Uli trata seus personagens: pergunta com franqueza, sem dó nem arrogância. Posto aqui um trecho do filme para que outros possam embarcar na viagem. E bem, ele viajou sozinho com sua camerita, me identifiquei bastante… Semana que vem sou eu quem subo no trem! Hasta!

ps: sorry, as legendas do doc em espanhol estão em alemão… Mas acho que dá para acompanhar bastante.
ps2: a madre soltera cochilando me arrepia a alma…