31 de Maio de 2008

Mães que vão, filhos que ficam.

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O táxi chegou na rua escura, na periferia da caótica Manágua. Embaixo da árvore, pouco acima do novo rio que corria por toda a cidade pingado dos temporais furacânicos, estava Sherlyn Paola Velásquez me aguardando. Bati o olho e soube que ela era ela. Havia assistido o filme protagonizado pela pequena uns centímetros de altura atrás. El Camino é a história de Saslaya, uma menina que cansada da vida dura de catar lixo e dos abusos de seu avô parte da Nicarágua em busca da mãe que migrou para a Costa Rica e desapareceu.

“Pode entrar em minha humilde casa” sorri me conduzindo para fora da viela de barro. Sua priminha correu para nos cumprimentar na grade até o teto que separa a varanda do mundo de fora. No sofá mostrei para Sherlyn a vídeo matéria que produzi para a TAL (quando estiver online linco aqui) em que a diretora Ishtar Yasin conta que não se sabe em que momento o filme vira documentário e em que momento volta a ser ficção. Os olhos da menina inundaram. Me concentrei para afastar o urubu jornalístico que adora sangue e choro e lembrar que estava na frente de uma menina de 13 anos que aos três viu sua mãe migrando para nunca mais voltar - nem mandar uma carta, nem uma ligação, uma notícia de “está difícil mas estou viva”, um grito de “montei nova família e não quero mais saber de vocês, porra!”. Sherlyn Paola só ouviu silêncio.

Ela é um dos milhares de filhos que se despedem das mães que fogem do segundo país mais pobre da América Latina (o ranking é encabeçado pelo Haiti) em busca de trabalho. As madres vão com o plano de mandar dinheiro para casa, para melhorar a vida dos filhos na Nicarágua. Mas ás vezes do outro lado da fronteira só encontram não - como a personagem Jessica citada há alguns posts - e aos poucos cortam o contato com a família. Outras não suportam a esquizofrenia de estar dos dois lados da linha ao mesmo tempo e também desaparecem.

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No filme Saslaya escolhe uma solução menos feliz que a que Sherlyn tem optado. Sua personagem real não vai em busca da mãe mas parece, apesar da pouca idade, ir em busca de si mesma vorazmente. A menina estuda teatro dês de pequenininha, gosta de cantar, de dançar. Quando crescer quer ser psicóloga: “quero entender a gente, escutar, ajudá-los a resolver seus problemas”. Teve dificuldades para conseguir o visto para a Costa Rica para as filmagens mas agora já se prepara para cruzar a fronteira de novo para assistir a estréia de seu filme em agosto. Suas frases vem sempre pontuadas com uma mirada terna - ás vezes decidida ás vezes de uma tristeza que vem de longe, longe. A linda me levou de volta ao ponto de táxi: “me emociono muito, sou assim”, se despede. Suerte Paola!


30 de Maio de 2008

deixe me ir, preciso andar…

ou só mas bem acompanhada

ou cadê minha pistola?

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Viajar sozinha é uma experiência de explorar para fora e para dentro. Se caminha descobrindo os medos e desejos ao passo que se escuta o que tem que ser e de onde fugir. E conto que ser mulher sozinha na América Central nem sempre é gostosinho. Na primeira saída que dei no Panamá por la noche levei uma mãozada na bunda em pleno farol, numa avenida deserta. Antes de ontem quando entrava no primeiro ônibus nicaraguense um homem alto, de camisa azul e chapéu de boiadeiro me cantou (ou algo parecido): “senta aqui do meu lado para me esquentar”, disse em tom de ordem e não de chaveco. Sentei o mais longe que pude me esquivando de olhares. Concentrada fazia cara de quem não tinha medo, de quem acha muito normal dormir com todo seu equipamento e corpo desprotegido num ônibus cheio de homens de outra cultura. Fingindo não me aterrorizar com um homem de chapéu e cinto de boiadeiro que se sente no direito, apenas pelo fato de ser homem e estar a frente de outro ser, menor, feminino, de dar ordens de seus desejos em alto e bom som.O ônibus, disse o chofer, deveria parar em Managua uma da madruga. Eram três e nada. Como a estrada estava péssima – e péssima neste caso não é superlativo se não constatação sóbria – e a todo tempo se parava para subir sacos de feijão, de banana, cestas de palha achei que tudo bem o atraso. A Nica com quem havia trocado meia dúzia de palavras então soltou a bomba: “mudaram o caminho e não vão passar em Managua”. Simples assim. As 3h30 da manhã o motorista pára numa feira que começava a se montar, com duas dúzias de homens distribuídos no breu: “aqui vai passar um ônibus para Managua, vocês podem esperar”. Com a cara inchada das dormidas saltitantes (havia saído de San José 5h30 da matina) perdi metade de meu espanhol e toda a classe e dei de louca: “que feo. Vas a dejar dos chicas acá? Como dije una cosa y cambia?” Sei lá mais o quê gritei com 23 quilos de roupas nas costas e dez quilos de câmeras e computador na mochila da frente. No fim voltamos para o ônibus e quando cruzamos um que ia de verdade verdadeira para Managua o motorista nos levou na porta e pagou a passagem.

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Cinco e pouco da manhã cheguei. Totalmente sem humor, com uma cara que nem era minha. Tive aquela vontadezinha de chorar no ombro de alguém mas como achei que a recepcionista da pousada não entenderia tanta intimidade de uma nova hóspede resolvi só dormir – esta é uma das coisas mais importantes para mim numa viagem: nunca jamais fique cansada nem durma menos do que seu humor solicita. Durante todo o dia fiquei com a sensação de “aqui não”. Só escutava “cuidado com isso”, “ojo com aquilo”, “por ali não pode”, “peligroso”, “peligro”, “ojo”. Metade era o que deve ser, a outra metade acho que atraí por estar com a alma medrosa. Sei que mandei fazer cópias de foto e a máquina quebrou – briguei com o atendente. Já tinha brigado com o taxista. E antes que brigasse comigo também resolvi escutar a tal da intuição. Fiz a entrevista que estava marcada com a menina Paola (papo de um post logo mais), marquei outra que me é importante (com o filho de Gorgina!) para o dia seguinte de manhã e bye bye. Fujo para a cidade vizinha, linda e colonial; de lá armo o que falta da capital. Busco um lugar para dizer “aqui sim” e quedarme sin miedo. Se não de nada vale ir tão longe. E se há uma coisa boa, bem boa, em ser mulher é permitir-se aguçar o tal do sexto sentido. E uma coisa linda em estar sozinha é mudar o destino sem pedir permissão. Nos vemos em Granada! Boa viagem, porfa…


29 de Maio de 2008

o homem de olho saltado

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O ônibus que vinha de San José parou em Los Chiles, fronteira da Costa Rica com a Nicarágua. Todos foram saltando enquanto eu me espreguiçava. Ainda sem saber onde sonhava e onde vivia vi um olhar saltado de vermelho fazendo códigos ligeiros e agressivos para o menino com cara de indio, cabelos escorridos e camisa branca que viajou no banco ao lado meu. O menino americano, da América antes de ser América, num pulo pegou sua bolsa negra e desceu correndo do ônibus. De pronto despertei. A polícia pegou o homem forte de olho saltado, que saltava ainda mais. Empurraram para a viatura o corpão de mãos também grandes. O menino índio foi levado para o seu lado. Me aproximei do poliça e perguntei como turista tonta, com trinta quilos nas costas debaixo da chuva e cara de quem dormia mas de pronto acordou, “que que tá pegando”. “Indocumentados”. “Mas que que vão fazer com eles?” “Nada, só não queremos que eles sigam com os coiotes. Os coiotes cobram muito para levá-los por trilhas clandestinas e muitas vezes, no meio do caminho, os agridem e roubam”. Acostumada que sou a não acreditar nos fardados imaginei os pobres nicas presos levando uns cascudos fortes.
Depois de carimba daqui, paga dali cheguei no barco que cruzaria pelo rio San Juan a divisa dos países irmãos – irmãos um pouco brigados, diria. Lá estava o homem de olho saltado, já menos saltado, e seu amigo tupi. Os dois confirmaram a versão policial (ufa!). Cada um sentou num extremo do barco. Eu que tinha medo do homem de mão grande e olho para fora sentei bem atrás dele, numa postura de “quem te olha sou eu”. Descobri que suas mãos eram grandes de enxada e seus olhos saltados de medo. Agora, com as mãos mais relaxadas e os olhos mirando os macacos e pássaros na beira do rio marrom ele voltava sem passaporte para o país em que não precisava de papel para se provar gente.

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27 de Maio de 2008

Jantando com um traficante

Quase sempre os de fora se juntam e assim numa cozinha costa riquenha um cubano preparava comida vietnamita para los hambrientos da Argentina, Suiça e Brasil escutando música nicaraguense: nada mais cosmopolita! Enquanto garfávamos o cubano saboreava seu passado negro: “sou a favor de tudo que é ilegal”, sorria com malícia. Numa história cheia de detalhes e suspense nos contou do dia em que foi pego e algemado num galinheiro pela polícia cubana. Qual o crime? Tráfico. Tráfico de torrones… “Você tem que tratar o policial sem medo nem soberba, caso contrário se tornam sádicos”. Assim se livrou da prisão por comércio ilegal de alimentos. Em seus parentesis contava que comer carne de vaca sem autorização do Estado pode render até dez anos de cadeia e que 70% da economia está baseado na ilegalidade. Filho de fidelistas fiéis mesclava uma tristeza pelo que deixou de ser o país no pós URSS e um orgulho pela ilha da boa saúde e educação que boia no pobre Caribe. “Não queria ser de nenhuma parte, se não de Cuba!”, se infla escutando Buena Vista -“¡Oígame compay! No deje el camino por coger la vereda.”


25 de Maio de 2008

A arte.

Ou a tpm.
Ou a impotência.
Ou nada.

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Há quase um mês conheci Jessica. Outro mês antes ela vendia churrasquinhos em frente a Embaixada da Costa Rica em Managua, Nicarágua. Entre um e outro espeto escutava falar dos bons salários costa riquenhos e, seduzida, juntou os trapos. Cruzou a linha sem grana nem documento. Pagou 20 contos de dólar prum policial corrupto, os tais coiotes, e atravessou o mapa pelos sobe e desce de morros ilegais. Logjessica4-corrigida.jpgo descolou seu primeiro trabalho tico (como se chamam os costa riquenhos) de 20 mil colones num bar. Trabalhou uma semana até descobrir que o salário equivalia a dez dolares semanais. Continuou. Reclamou com a dona que os fregueses lhe pediam que sentassem no colo e lhe passavam a mão na perna e ouviu um “é bom você obedecer porque tem muita gente, com papel inclusive, querendo seu emprego”. Um dia saindo do trabalho tentaram estupra-la e ela então largou o fabuloso trabalho e a cidade e perambulou até chegar na capital San José. Há duas noites dormia na praça que a conheci. Não tinha dinheiro, trabalho, passaporte. Tinha uma filha internada com pneumonia do outro lado da fronteira, uma mãe há vinte dias sem notícia, um choro engasgado, bastante medo e pouco esperança. Me deixou com um sentimento de impotência incrível. Dei um dinheirinho, meu chale, um número telefônico. A noite deitei na cama, embaixo do cobertor e odiei o mundo. Fique ali pensando o que fazer para ajudar aquela sem sorte. Depois de reviradas e viradas dormi. Dormi muito inclusive.
Acordei ainda pensando em alguma ajuda, liguei para um entrevistado do Caritas (jesuitas que trabalham com migrantes) que se ofereceu de apoiá-la. Voltei a praça e não a encontrei. Ali xinguei uns nojentos que me cantaram qualquer “mami, que culo”. Gritei “no soy una perra chico”. Me responderam algo de pouca educação – vai ver que sou uma perra – e me senti um pouco tonta de gritar sozinha com meu sotaque brasileño para um grupo de homens machistas no meio da rua na Costa Rica. Mas estava naqueles dias de censura baixa, vulga TPM - esta foi a do mês passado, se aproxima outra mais, ai ai. Nada passou. Segui e na minha sensibilidade hormonal decidi ir ao cine. Des de o começo da viagem não entrava numa sala.
El violin chama. Mexicano. Trata de uma invasão do exército numa comunidade, provavelmente no Chiapas. Lindo filme. Triste. Ali vi gente se deslocando, sem rumo, sem sonhos: “la musica se acabó”. Não conto do filme, há que assisti-lo. Mas acabou a sessão e fui invadida por uma convulsão de choro destas de ter de que pedir asilo no banheiro. Não havia chorado com o caso de Jessica. A realidade parece muito ficção para que me permitisse desabar. Mas ali, com o filme tão real pude me desanestesiar. Bendita a arte. malditos “homens ambiciosos”. “mas um dia se volta ao bosque”. Ojala vuelva.

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ps: vale ir no site de el violin e escutar as músicas disponíveis do lado esquerdo da nossa tela. só clicar aqui para ir para lá.


24 de Maio de 2008

encontros e reencontros

jaime-direita.jpg Sabe quando uma idéia está bem no fundinho da caxola mas se esconde, não se explica? O argumento para o documentário para a Televisión America Latina (TAL) estava assim, esquivadinho mas quase vindo quando fui gravar com um dos principais grupos da Costa Rica, Malpaís. Em cinco minutos de papo pós camera com o baixista Jaime, puf!, a sinapse final! “Posso gravar o que você me disse, se não vou acordar amanhã e pensar por que não gravei…?” Gravamos dez minutos sobre os conflitos que separaram o continente, xenofobia e as iniciativas artísticas de integração dos povos (a cultura rompendo fronteiras, heis o tema!), fiz as tomas do show, disse hasta luego e me fue.

Mas acordei igual, com uma vontade de conversar mais com o tico, aqueles mistérios. Só que pé na estrada é isso aí, parti de San José e arquivei a idéia.

Com a decisão de não deixar pendências na Costa Rica voltei por Giorgina e decidi eliminar os outros perhaps costa riquenhos. Na cara dura chamei Jaime para uma breja – viajar é sensacional porque deixa mais vivo o Hoje porque amanhã é outro sotaque, outra paisagem; aqui ou é ou não vai ser. Ele topou. Fomos ao Jazz Café San Pedro, um local bacanudo com ótimo repertório todo dia.

Lá Jjaime-esquerda2.jpgaime me contou que tocou no mesmo palco do nosso Chico em Honduras, “meu cantor preferido no Brasil”, fez giras por tantos cantos; falava de música de todo o continente: elogiava Villa Lobos, Gil, murgas uruguaias, salsas caribenhas. Contava que tem que trabalhar como publicitário meio período para pagar as contas (em todo o continente o mesmo, não? Artistas que para fazer arte tem que garantir o aluguel por outro lado). Me hablava de migração, integração, vulcões, ria.

Três cervejas, tantas histórias e nos despedimos. Saí leve, com aquela sensação de encontro, de estar em dia com as vontades. ¡Pura vida!, como se diz por estes lados de cima…

ps1: O post é só uma desculpinha para lincar (aqui!) um clipe do grupo. Logo mais sobe o vídeo que fiz para a TAL deles, aí linco por aqui e posto um pouco da história de Malpais. ¡Buen provecho!

ps2: vale ler o lindo texto de Jaime sobre migração para o jornal Nacion, só clicar aqui!

ps3: uma musiquinha do Malpaís relacionada com a temática migrante: Historias de Nadie



22 de Maio de 2008

em busca da máquina do tempo

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Conheci Giordina atrás do balcão. Pedi uma salada de fruta com granola e ela me sorriu tanto com os olhos que me apaixonei. Transpirava este amor que só as mães podem ter. Passei sei lá quantos dias almoçando e desayunando deste carinho. Ela me contou que há sete anos veio da Nicarágua. Sem grana, largou o filho de doze anos e cruzou a fronteira. E aí a velha história: ficou sem papéis, sem emprego, sem esperanças, sem sorte. Teve uma filha do lado de cá e quando contou ao companheiro da barriga ele a xingou, abandonou, esculachou. Ela sem trabalho se submeteu aos seus mal tratos um pouco. Depois começou a trabalhar num restaurante em troca de comida. Me contava entre lágrimas e olhos brilhantes. Acabou a história, fiz o check out e parti de San José.

Entrei no ônibus com uma sensação de erro. Já que não podia levar Giordina comigo e ajudá-la a colocar a vida num caminho mais sereno precisava ao menos gravá-la, fotografá-la, sei lá o quê. Viajei editando um vídeo imaginário de sua vida, tirando fotos em sua casa que só existia em minha cabeça. Decidi não deixar pendências na Costa Rica e voltei para a capital. Liguei para minha cozinheira preferida: “Posso gravar uma entrevista contigo e tirar umas fotos e então levar para o seu filho em Manágua?” O “claro” me encheu de certeza.

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Voltei ao restaurante e saí com Giordina para sua casa. Caminhava com a sensação de que seria feliz se ela fosse minha mãe - não que troque a minha por nada, relax dona Celia. Ela não me deixou pagar nenhum dos dois ônibus: “sou a cicerone”. Chegamos no seu quarto e sala feito de lata mas com detalhes de capricho: ursinhos de pelúcia, fotos, espelhinhos nas paredes de metal, um penduricalho no teto de eternit. Pegamos a filhinha que fica o dia todo na vizinha. Enquanto a mãe falava para a camêra, Tânia, uma princesinha de dois anos e meio sassaricava de um e outro lado. Enquanto a pequena desenhava rabiscos no meu caderno Giordina me contava que havia ganhado uma bolsa para cursar jornalismo aos 23 anos. “Mas aí engravidei…” Perdeu a bolsa, voltou da capital para a terra natal e abriu uma vendinha. “Só que não conseguia negar comida a quem tinha fome e quando vi estava cheia de pinduras. Quebrei”. Com uma dívida bancária largou o terceiro ano da faculdade de história, o filho e o país. Do outro lado da fronteira, sem o prometido sucesso financeiro, recebeu a notícia de que a casa foi hipotecada: “entrei em depressão”.

“Se eu pudesse fazer igual esta camera e voltar no tempo eu não abandonaria meu filho jamais. Como eu queria ter ele do meu lado”, se desmorona. Os olhos molhados gritavam na mulher que em um momento errou na escolha. “A pior coisa é ser migrante. E olha esse barraco… minha vida, minha casa eram muito melhor quando eu morava na Nicarágua”.

Giordina e Tânia me levaram no ponto. Senti saudades ali. Vontade de fazer algo, voltar com ela sete anos e sussurar: “aceite esta proposta de dar aula que a professora lhe oferece. Desencana do mito dos altos salários costa riquenhos, por favor…” Mas antes da máquina do tempo chegou o transporte. Subi e Tânia começou a chorar gritando. Ela havia pedido para vir comigo e eu disse que seria uma caminhada dura até o Mexico, mas se ela topasse… Ela topou. Mas ficou ali no ponto que se distanciava. Chorei o choro da impotência, da falta de sorte enquanto o ônibus saia da periferia de San José.giordina_02.JPG


22 de Maio de 2008

happy end para começar

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Altos edíficios envidraçados emergiam do Pacífico no país mergulhado no american way of life. “Parece os Estados Unidos”, pensou Idalgisa ao ver a foto do postal que a cliente do salão mostrou. Enquanto secava os cabelos da dona do cartão, decidiu-se: “É lá que eu vou morar!”. Arrumou as malas na República Dominicana, largou os dois filhos com a mãe e rumou para a Cidade do Panamá em 1990.

Chegou um ano depois das bombas norte americanas deporem o general Manoel Noriega - que havia sido treinado pela própria CIA nos idos 60 e 70. Para manter o poderio estadunidense sobre o Canal do Panamá bairros foram arrasados e milhares de panamenhos assassinados, mas Idalgisa nem notou: “Não estava muito destruído não”. Depois de cinco anos vivendo ilegalmente, a dominicana se casou com um panamenho. “Mas foi só para conseguir os papéis, não quero casar!”, desconversa.

Com passaporte carimbado a situação de perrengues se transformou: passou a ganhar melhor, aumentou o envio de dinheiro para a família e logo voltou à ilha caribenha para buscar a cria. Hoje o mais velho, com 23 anos, cursa fotografia na Espanha. A mãe coruja cumpriu assim o sonho das migrantes: “pensa se eu tivesse continuado lá, se ele ia poder estudar fora…”, sorri mostrando a foto do belo jovem negro no celular.

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fotos: idalgisa no salão de beleza panamenho e vista da chegada na ciudad panamá.


19 de Maio de 2008

Estou aqui de passagem…

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O meu pai é capixaba. Meu avô italiano. Minha mãe carioca, filha de mineiros. O tio que mora em Washington tem uma filha em New York e a tia de Brasília parte da cria em Fortaleza. Minha irmã caçula está em Niterói e a primogênita em São Paulo. Eu nasci no Rio, me criei em Vitória, estudei em Sampa. E lá fiquei até o doce de leite me levar a Buenos Aires. Mas como em um tango, voltei.

Minha família nômade e, ao contrário da maioria das personagens que desfilarão neste blog, parte em busca de cultura, estudos ou sossego. As cerca de doze milhões de mulheres latino americanas migrantes cruzam fronteiras por causas menos alegres: partem em busca de um trabalho (mal remunerado) para pagar a sobrevivência de seus filhos que normalmente ficam do outro lado da linha.

O fluxo de mulheres que viajam sem maridos, namorados ou pais começou com as européias e norte-americanas que levavam na bagagem a recém criada pílula anticoncepcional, nos idos 60. Três décadas depois e a saída de mulheres ultrapassou a de homens nos países desenvolvidos. No terceiro mundo, entretanto, a proporção de 54% de migrantes do sexo masculino se mantém mais ou menos constante desde que os sutiãs foram queimados. Mas nosso subcontinente latino aparece como primeira região do sul a registrar a paridade numérica de emigrantes homens e mulheres.

A igualdade de direitos entre os sexos, entretanto, dita léguas. Bastam alguns números para se entender que a coisa anda mal: 2/3 das mulheres que chegam na fronteira do México foram vítimas de algum abuso sexual; as migrantes, embora com escolaridade maior que a dos homens, tem uma média salarial 30% mais baixa; 1,9 milhão de mulheres e crianças são vítimas do tráfico humano (uma das três atívidades ilícitas mais lucrativas do mundo). Quando soube destes tropeços senti vontade de seguir contando dos passos e pernas destas andarilhas. Assim, aqui no América sem fronteiras, acompanharemos mulheres que em sua sede de vida largam a família, os amigos e tudo que tem em busca de algo melhor.

A caminhada começa na Cidade do Panamá, onde pisei sozinha com minha (grande) mochila em março. De ônibus em ônibus, de fronteira em fronteira, de “causo” em “causo” chegaremos aos Estados Unidos. No caminho flertaremos com mulheres que colocaram toda a esperança em uma mala e se fueran. Ao mesmo tempo que reuniremos crônicas e fotos, conversaremos com artistas que pelo som, pelo traço, pelo baile e pelo grito tentam construir um continente irmão.

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foto um: montagem minha de eu careteira, da mãe carioca, dos avós mineiros fotografados pelo pai capixaba.
foto dois: menininha não sabe se vai ou se fica na Península do Osa, Pacífico Sul da Costa Rica

ps1: estes passos foram enfeitados pela grande parceira Katarina quer Beijar (http://www.katarinaquerbeijar.com.br/) que com suas roupas charmosas recheou minha mochila!
Ps2: a parte divertida da viagem passa na GNT, a cada quinze dias no “Saia Justa”! A parte cultural na Televisión América Latina. E aqui no América sem Fronteiras lincaremos todo o percurso! Buen viaje!